No interior do Ceará, clientes compram produtos fiado. Com calotes, donos de estabelecimentos só vendem quando podem ficar com cartão

Dois comerciantes foram presos no município de Jaguaribara (a 290 quilômetros de Fortaleza), na quarta-feira (27), sob acusação de ficar com os cartões da Previdência Social de aposentados. Era a condição para que eles vendessem fiado aos idosos. Eles pegaram fiança e foram soltos no mesmo dia.

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Jaguaribara fica a 290 quilômetros de Fortaleza
Reprodução/Google Maps
Jaguaribara fica a 290 quilômetros de Fortaleza
No interior, é comum os comerciantes manterem seus caderninhos de contas, onde tomam notas das compras que não são pagas de imediato pelos clientes. É uma forma de controlar o que é consumido, como uma fatura de cartão, e também uma espécie de promissória. Nesse tipo de transação comercial, prevalece a palavra de quem compra e o voto de confiança de quem vende. Porém, com o aumento da população no interior, o uso crescente dos cartões de crédito e de débito e a ampliação dos programas sociais, a palavra deixou de ser a única garantia.

Cosme Peixoto Moraes e Francisco Flávio Dantas foram presos com 31 cartões que não pertenciam a eles. De posse das senhas, mensalmente eles sacavam o dinheiro dos beneficiários e descontavam na dívida do caderninho. Na Delegacia Regional de Jaguaribe, os comerciantes disseram que praticamente todos os comerciantes de Jaguaribara fazem o mesmo. Os dois só foram presos porque as vítimas estranharam o fato de as dívidas nunca serem quitadas. O saldo para o mês seguinte era sempre negativo.

Com a denúncia, os comerciantes foram presos com base no artigo 104 do Estatuto do Idoso que diz ser crime “reter o cartão magnético de conta bancária relativa a benefícios, proventos ou pensão do idoso, bem como qualquer outro documento com objetivo de assegurar recebimento ou ressarcimento de dívida”. A pena é detenção de seis meses a dois anos e multa. O crime, contudo, é afiançável e os dois foram soltos no mesmo dia da prisão, com o pagamento de três salários mínimos cada.

Segundo a delegada Eliana Maia Soares, que está cuidando do caso, essa prática se tornou comum no interior, sobretudo com os beneficiários do Bolsa Família.

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