Mulher faz filme para convencer vilarejo de que pode ser pescadora

No litoral do Ceará, mulher em barco é sinal de azar no mar. Sidnéia queria mostrar que não. Com um filme premiado, conseguiu

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

O pessoal dizia que mulher no barco dá azar, faz a pesca não render. Se a mulher está naqueles dias, eles dizem que o pano da vela pode rasgar e o barco virar"

A rotina da maioria das mulheres da pequena praia de Redonda, no município de Icapuí, a 200 quilômetros de Fortaleza, se resume a cuidar dos afazeres de casa, fazer colcha de cama e toalha de mesa e... esperar. 

Elas esperam o tempo passar, o sol se pôr e os maridos – quase todos pescadores – regressarem do mar. Pela  tradição, essa deveria ser a vida de Sidnéia Lusia da Silva, de 32 anos. Mas enquanto as outras mulheres do lugarejo cultivam a paciência, ela pesca lagosta e faz cinema.

Sidnéia nasceu e sempre viveu em Redonda. A praia de dois quilômetros de extensão fica a 20 quilômetros do município de Icapuí, que na década de 1980 ainda era um distrito do município de Aracati. A comunidade tem pouco mais de três mil habitantes. O sustento vem basicamente da pesca da lagosta e do turismo. A origem do nome praia de Redonda pode ser suposto do alto de alguma falésia. É que, de cima, os extremos da praia dão a impressão de formar um semicírculo.

Nesse cenário rústico e paradisíaco, uma garota, ainda aos doze anos, resolveu desafiar as tradições e virar pescadora. Foi falar com o pai, Raimundo Sebastião, que resistiu por um tempo, mas logo foi persuadido, vencido pela insistência. Sidnéia foi pescar lagosta com o pai e os irmãos e não largou mais o mar. “Peguei gosto quando soube o que ele passava para alimentar a família”, explica a pescadora de pele marcada pelo sol e corpo esculpido pela exigência física do trabalho.

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Trabalho árduo

Dia de pesca começa cedo, ainda às 4h30 da manhã, e vai até às 16h - ou pode durar dias. É a própria Sidnéia que constrói os manzuás – as redes de madeira e tela usadas para capturar a lagosta. No barco com os irmãos e o pai ela puxa a âncora e ajuda a tirar a água do barco. “Exige coragem, determinação, força e tem que ter habilidade para se equilibrar. Algumas têm isso, mas não é para todas”, avalia.

 Apesar de toda a dureza do trabalho, não foi essa a maior barreira que Sid – como é conhecida por todos – precisou enfrentar para se tornar a primeira e até hoje única pescadora da região. O preconceito e as superstições dos pescadores locais foram os maiores inimigos. “O pessoal dizia que mulher no barco dá azar, faz a pesca não render. Se a mulher está naqueles dias, eles dizem que o pano da vela pode rasgar e o barco v virar”, conta.

Arquivo pessoal
Sidnéia Lusia da Silva: ela pesca lagosta e faz cinema
Ela faz cinema

Quando soube de um projeto que incentivava a população de pequenas cidades do interior a mostrar sua realidade em vídeos, Sid achou que poderia contar sua história e de quebra convencer a população de Redonda que nada impede mulheres de pescarem como fazem os homens da comunidade. “Eu tinha vontade de contar minha história. As pessoas falavam que dava um livro. Não é muito comum uma mulher fazer o que faço”.

Deu um filme. Sid lançou “Uma pescadora rara no litoral do Ceará”, documentário que, em quinze minutos, apresenta a única pescadora da região. Viajou por todo País e parte do mundo. Ganhou nove prêmios e voltou para saber se algo havia se modificado em Redonda. “Depois do filme, alguns pescadores começaram a mudar de opinião. Hoje eles aceitam mulheres nos barcos, levam namorada, esposa, irmã, mas para passear, e só de vez em quando”.

“O lance de eu fazer o documentário era para acabar o preconceito daqui. Todos os homens achavam que mulher é para tomar conta de fogão e casa e ter aquela vida restrita a um canto, que só pode fazer isso. Mas agora minhas amigas mesmo me dizem: Sid, não sei como você aguenta. Mas todo mundo tem capacidade para fazer o que quiser, eu acho”.

Reprodução/Google Maps
Icapuí fica a 200 quilômetros de Fortaleza
Aos mortos de morte morrida”

Sid não parou no primeiro documentário. Ganhou um incentivo por meio de um edital do Governo do Ceará e produziu outro documentário. Desta, vez contando a história de sua avó Germana Rodrigues da Silva. Ela está prestes a lançar “Aos mortos de morte morrida”.

“O primeiro filme eu queria mostrar para a minha comunidade. Não imaginei a repercussão que teve. Foram nove prêmios. Se a minha história eu achava que não era nada, imagina a história da minha avó”.

Mãe Germana – como era conhecida a avó de Sid - morreu em 2007 aos 79 anos. Ela era uma espécie de cabocla curandeira da comunidade. Na falta de médico, era procurada para fazer os partos da comunidade e para curar doenças com benzeduras. Quando reza não dava jeito, na falta de padre para dar o último sacramento, mãe Germana se encarregava da tarefa também. “O filme tem esse nome porque aqui ninguém morre de morte matada. As pessoas morrem de velhice, de doença, então a minha avó era muito procurada”.

Pesca fraca

Além de fazer vídeos e pescar, Sid tem que se desdobrar para dar conta de outras atividades. “Hoje a pesca de lagosta já não rende como antes. A pesca predatória está acabando com a lagosta”. O quilo vivo do crustáceo é vendido por aproximadamente R$ 43.

O problema é que enquanto os pescadores artesanais de Redonda usam manzuás – que é uma rede permitida por lei – os pescadores de comunidades vizinhas utilizam compressores que sugam as lagostas e as aprisionam nas marambaias – tambor onde o crustáceo fica aprisionado. O equipamento acaba sugando lagostas grandes e pequenas, prejudicando a reprodução dos bichos. “A gente pesca artesanalmente porque é acostumado. Mas cada lugar tem sua técnica, tem sua forma de explorar. Eu não critico ninguém. Não é certo, mas é uma escolha deles”, diz.

Arquivo pessoal
Sidnéia: "Tem uma coisa de Redonda que me segura. Dizem que quem é rico mora na praia. A gente vive em um cartão-postal e come peixe todo dia. Deve ser mesmo”, brinca"
“Tem uma coisa de Redonda que me segura”

Depois do filme, Sid conheceu lugares e pessoas, foi convidada para trabalhar em outras atividades em Fortaleza, Rio de Janeiro e recebeu até uma proposta de um amigo norueguês para ir pescar em algum mar gelado da Europa um tipo de crustáceo do qual se extrai “o tal do ômega 3”. Mas ela não consegue deixar Redonda. “Tem uma coisa de Redonda que me segura. Dizem que quem é rico mora na praia. A gente vive em um cartão-postal e come peixe todo dia. Deve ser mesmo”, brinca.

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