Justiça decreta que greve dos policiais civis do Ceará é ilegal

Filas se acumulam nas delegacias do Estado. Agora, agentes têm 48 horas para voltar ao trabalho

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

A greve dos policiais civis do Ceará está deixando a população que procura as delegacias de Fortaleza sem atendimento. Nesta terça-feira (5), enquanto boa parte das pessoas que precisaram fazer um boletim de ocorrência voltou para casa sem o documento, a Justiça decretou a ilegalidade da paralisação. 

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A Justiça do Ceará decretou a ilegalidade da greve iniciada no último sábado (2) com base no argumento do governo do Ceará de que não teve conhecimento da causa do movimento e, por isso, não conseguiu negociar. A reivindicação do reajuste do salário-base para o equivalente a 60% do que recebem os delegados não teria sido apresentada. Os policiais que aderiram à greve têm um prazo de 48 horas para retornar às atividades ou terão de pagar multa diária de R$ 10 mil.

Daniel Aderaldo/iG
Delegacia lotada nesta terça, em Fortaleza, por conta da greve dos policiais civis do Ceará

No pedido ao Tribunal de Justiça, a Procuradoria Geral do Estado (PGE) argumentou ainda que a segurança é um serviço essencial à sociedade e que a greve põe em risco a segurança da população do Estado. Das 35 delegacias distritais de Fortaleza, apenas 11 estão funcionando. A partir das 17 horas, esse número cai para cinco. Além de interromper as investigações, a paralisação dos policiais civis está prejudicando demandas mais simples, como a expedição de um boletim de ocorrência, por exemplo.

Eu estou aqui sem almoçar, mas preciso do B.O para acionar o seguro”, diz moradora de Fortaleza

Fila de espera

Quem consegue uma senha de atendimento para fazer o chamado boletim de ocorrência chega a aguardar mais de duas horas para conseguir o documento. A estudante universitária Tamires Lograd, porém, precisou de muito mais tempo para registrar o acidente de carro em que se envolveu no final da manhã. Ela chegou ao 4º Distrito Policial, localizado no bairro Pio XII, por volta de meio-dia. O atendimento só começou às 14h e, às 16h, ela ainda esperava. “Eu estou aqui sem almoçar, mas preciso do B.O para acionar o seguro”, contou.

A estudante Tamires foi uma das 40 pessoas que conseguiram atendimento no 4º DP, mas, em um único dia, cerca de 20 pessoas perderam a viagem. A população que antes era atendida em outras delegacias está sendo redirecionada para as que estão funcionando durante a greve. O problema é que a capacidade de atendimento continua a mesma. Além de fazer os boletins, os funcionários precisam colher depoimentos e lavrar flagrantes policiais. Com isso, as delegacias lotam. 

Reivindicações

A presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Ceará (Sinpoci) diz que as filas nas delegacias apenas expõem um problema que é diário. “Na prática, a polícia civil já está parada. Nós apenas estamos tirando uma máscara. Há cinco anos não há concurso”, alertou a presidente do sindicato, Inês Romero. Segundo ela, apenas 5 % dos policiais civis do Ceará estão de fato na rua investigando crimes.

Isso porque, de acordo com Romero, há uma carência de policiais e desvio de função. Atualmente, cerca de 800 presos estão recolhidos em delegacias do Ceará. “Nós viramos babás de presos”, afirmou à reportagem do iG .

“Na prática, a polícia civil já está parada. Nós apenas estamos tirando uma mascara. Há cinco anos não há concurso”, afirma presidente do sindicato

Além da remoção dos presos das celas das delegacias, a categoria em greve reivindica reajuste salarial, melhores condições de trabalho, concurso público e convocação de aprovados no último certame. O salário-base da categoria é de R$ 2,1 mil. O Ceará conta com 1,8 mil policias civis entre escrivães, inspetores e peritos. Para se ter uma ideia, Pernambuco, que possui população semelhante ao Ceará, conta com sete mil policiais civis.

O superintendente da Polícia Civil do Ceará, Luiz Carlos de Araújo Dantas, já declarou que só negocia com a categoria se a greve for interrompida. Já os grevistas dizem que não normalizam o trabalho enquanto o governo do Ceará não apresentar propostas para as reivindicações dos policiais civis. A Justiça deu um prazo de 48 horas para o término do movimento sob pena de multa diária de R$ 10 mil. 

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