Juazeiro do Norte faz 100 anos e espera reabilitação de Padre Cícero

Considerado santo pela população, padre foi primeiro prefeito da cidade. Agora, bispo tenta derrubar sua excomunhão para torná-lo santo da Igreja Católica

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

Arquivo de Renato Casimiro e Daniel Walker
Foto, sem data, de Padre Cícero: mesmo banido pela Igreja Católica, devoção a religioso só cresceu
Ao completar 100 anos nesta sexta-feira (22), a cidade de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense (a 520 quilômetros de Fortaleza), é vista como estratégica na complexa tarefa de estancar a sangria de fiéis que a Igreja Católica sofre no Brasil. Por ano, 2,5 milhões de romeiros de todos os Estados do Nordeste peregrinam até a cidade para louvar a figura de Padre Cícero Romão Baptista. Mas, somente em 2002, esse ato de fé passou a ter o reconhecimento da Igreja Católica. Agora, a Diocese do Crato, da qual Juazeiro do Norte faz parte, trabalha no Vaticano para reabilitar o santo popular. 

Juazeiro do Norte passou de vila do município de Crato a município emancipado em 22 de julho de 1911, pelas mãos de seu fundador e primeiro prefeito, Padre Cícero. O clérigo pisou pela primeira vez nas terras de Juazeiro do Norte no Natal de 1871. O lugar se chamava Tabuleiro Grande. Um ano depois, o padre retornou para ficar a frente da paróquia local. As vidas da comunidade e do sacerdote mudaram com a comoção causada em 1889 por um suposto milagre. Durante uma missa, a hóstia ministrada pelo padre à beata Maria de Araújo teria se transformado em sangue na boca da religiosa. Deu-se nome de milagre. A Igreja Católica discordou, suspendeu as ordens sacerdotais de Padre Cícero, excomungou-o e determinou que a beata fosse enclausurada.

Apesar da excomunhão, o povo continuou tratando a controversa figura sempre como Padre Cícero. O sacerdote passou a ser adorado, virou santo popular, fez da cidade um dos três principais destinos religiosos do Brasil, ganhou estátua de 27 metros de altura, museu e memorial. Hoje, Juazeiro do Norte tem 250 mil habitantes e é uma das maiores cidade do Ceará. Desde 2006, a Diocese do Crato trabalha para reverter a decisão do Vaticano que excomungou Padre Cícero.

Reconhecimento das romarias

Ao longo de 100 anos, os romeiros de Padre Cícero nunca se afastaram da fé católica, nunca abandonaram a Igreja, acolheram silenciosamente as decisões da Santa Sé”, diz padre

“Padim Ciço” – como é chamado pelos sertanejos devotos – é adorado como santo em praticamente todo Nordeste, mas não é reconhecido como tal pela Igreja Católica. Longe disso, ele morreu proibido de ministrar os sacramentos, acusado de ser falso milagreiro, messiânico e incentivador do fanatismo. A legião de romeiros que vai a Juazeiro do Norte todo ano até pouco tempo sequer tinha a benção do Vaticano. As romarias só foram reconhecidas em 2002.

Mesmo excomungado, Padre Cícero se mantém como barreira ao progresso de outras religiões no sertão nordestino. A Igreja Católica sabe disso e, diante da perda de fiéis que vem sofrendo para outras religiões, especialmente as evangélicas, deu o primeiro passo para o perdão pelo qual o clérigo insubmisso esperou até a morte. A missão coube ao então recém-chegado bispo da Diocese do Crato, Dom Fernando Panico. O sacerdote italiano publicou sua segunda Carta Pastoral com o titulo "Romarias e Reconciliação". No documento, dom Fernando reconhece as romarias à Juazeiro do Norte “como uma expressão autêntica de fé católica”.

“Não se pode negar que o reconhecimento de que certa prática de fé católica possui legitimidade como expressão religiosa pode ajudar na superação daquilo que muitas vezes tem sido considerado como sendo uma das causas do afastamento dos fiéis”, reconhece o diretor do Departamento Histórico Diocesano Padre Gomes, padre Francisco Roserlândio de Souza. A própria Conferência Nacional dos Bispos (CNBB) reconhece que o catolicismo não para de perder adeptos no Brasil, ao passo que o número de evangélicos cresce em progressão geométrica.

Para padre Roserlândio, contudo, esse reconhecimento tem muito mais um caráter simbólico do que prático. “É importante considerar que, para o povo, essa não é uma questão das mais importantes, pois vive sua fé com consciência tranquila como fizeram os seus pais, gerações antes, apenas adaptando-se aos tempos atuais. Ao longo de 100 anos, os romeiros de Padre Cícero nunca se afastaram da fé católica, nunca abandonaram a Igreja, acolheram silenciosamente as decisões da Santa Sé”, diz ele.

Arquivo de Renato Casimiro e Daniel Walker
No começo do século 20, multidão se aglomera em frente à casa do padre tido como milagreiro: igreja reconhece que devoção ajudou a estancar a perda de fiéis na região
Reabilitação

Se o reconhecimento das romarias significou um ato importante para impedir o avanço ainda maior das igrejas evangélicas pelo interior nordestino, um dossiê com 11 volumes é que pode mudar a história de Padre Cícero - para a Igreja Católica. Trata-se do processo de reabilitação eclesial do padre, que tramita no Vaticano desde 2006. Esse é o primeiro passo que pode levar um sacerdote banido da Igreja a se tornar santo. A região em torno de Juazeiro do Norte é uma exceção: segundo pesquisas recentes, têm uma das maiores concentrações de católicos do Brasil.

Divulgação/Diocese do Crato
Dom Fernando Panico e o papa Bento 16: bispo reconheceu as romarias. Agora, esperar reabiliar Padre Cícero para, depois, torná-lo santo
O processo está sendo analisado pela Congregação para a Doutrina da Fé que, até 1967, era denominada Santo Ofício e, num passado mais remoto, tem seu nome mais conhecido: Inquisição Romana. Uma curiosidade é que Papa Bento 16, quando atendia apenas pelo nome de cardeal Joseph Ratzinger, antes de se tornar Sumo Pontífice, era "ministro" do papa para a Congregação - justamente a responsável pelos processos como os que vitimaram Padre Cícero.

“Apresentamos uma memória histórica da vida de Padre Cícero, contextualizando os acontecimentos relacionados aos Factos de Joaseiro de 1889-1892. Temos, por isso, cartas, declarações, atas, abaixo-assinados, solicitações, interlocutórias e outros documentos que foram anexados à própria petição, de dom Fernando Panico, de reabilitação eclesial de Padre. Cícero”, explica padre Roserlândio.

Novamente, cabe a dom Fernando Panico a tarefa de tirar da “marginalidade” o culto a Padre Cícero. O bispo trabalhou antes no Maranhão e Piauí. É, portanto, habituado às especificidades da fé cristã no Nordeste. “Muitos do povo atribuem ao padre Cícero a cura de um câncer do qual dom Fernando foi acometido alguns anos atrás”, conta padre Roserlândio.

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