Exposição no Ceará coloca janelas pintadas em paredes de presídio

Artistas plásticos organizam mostra de quadros dentro de cadeia do Estado

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

Assim que a reportagem do iG ultrapassa o detector de metais, vê a primeira grade de ferro se abrir e alcança o principal corredor do Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira II (IPPOO II), município de Itaitinga, região metropolitana de Fortaleza. Logo em seguida Hilton Lira, de 38 anos, carioca, pede para que os visitantes posem para uma fotografia.

Hilton Lira/Divulgação
Quadros imitam janelas em presídio do Ceará

O IPPOO II foi inaugurado há oito anos, tem capacidade para 492 e hoje está bem acima da capacidade, com 587 detentos. Fugas, brigas e entrada de drogas e celulares fazem parte do cotidiano da prisão. Na última vistoria realizada, no dia 19 de abril, a polícia apreendeu 23 celulares, crack, maconha e 117 litros de cachaça. Além disso, foram apreendidas duas armas artesanais (cossocos), três tesouras, 20 chips, 14 placas de celulares e 13 carregadores.

O presídio sofre com problemas comuns ao sistema penitenciário brasileiro. A diferença, contudo, está na escola, na biblioteca e, principalmente, no incentivo às artes. Até o dia 31 de maio, internos, visitantes e funcionários vão conviver com obras de seis artistas contemporâneos na carceragem.

Daniel Aderaldo/iG
Hilton Lira, ao lado do quadro com cachorro

Hilton fotografa os eventos do presídio, as visitas dos familiares e os presos. “Eu tiro mais para massagear o ego. Eles não vão ter acesso às fotos, mesmo”, afirma. Nas fotografias estão homens julgados por homicídio, latrocínio e assalto à mão armada, por exemplo.

Hilton se identifica com um dos quadros na parede. “Às vezes, eu me sinto como esse cachorro na janela. Como um cão abandonado”, lamenta, pela distancia da família.

Uma das obras, de Letícia Kamada, faz Antônio Valdécio, de 29 anos, lembrar das casinhas simples do município de Pacajus, 45 quilômetros distante de Fortaleza. Dá até para pensar que está diante da varanda de algum sítio de sua cidade natal.“A última coisa que você vai encontrar em um presídio é uma janela, principalmente janelas abertas. Isso criou um dialogo positivo”, analisa a coordenadora geral do Salão de Abril, Maíra Ortins.

Valcinei de Assis, 33 anos, nasceu no município de Tefé, no Estado do Amazonas. Viajou quase cinco mil quilômetros de barco e ônibus até Fortaleza. Antes de desembarcar na capital cearense foi preso em flagrante acusado de tráfico de drogas.

Há dois anos e um mês Valcinei aguarda julgamento. Ele é presidente de uma das alas do IPPOO II. Cuida para que as regras sejam cumpridas, administra conflitos e reza a Deus. Na sua ala fica a instalação “Retratos”, da artista plástica Clarissa Campelo.

Clarissa recolheu fotografias de familiares e amigos dos presos. Pintou telas com essas imagens e fez do muro da vivência onde o amazonense está preso um grande painel de fotografias.

“Ajuda a matar um pouco da saudade”, diz Valcinei. Saudade do filho mais velho, que ficou em Manaus com uma das avós, e não o visita às quartas-feiras e domingos, como fazem sempre esposa e caçula, hoje morando no Ceará.

Everardo Delfino, 36, já cumpriu dois anos de uma pena de 15. Foi condenado por homicídio. Ele tem uma filha, mas os dois nunca se vêem. A imagem que ilustra o seu quadro é da “branquinha”, gata que adotou no presídio. “Ele é minha única família agora”, conta.

Para a diretora do IPPOO II, Ruth Leite, a exposição só pôde ser realizada porque já existia um trabalho anterior à exposição. “Se fosse uma ação isolada, não haveria impacto. Mas como há uma preparação, podemos sentir os resultados. Eles se identificam com as obras, param para se colocar diante delas e se questionar”, conclui ela.

Hilton Lira/Divulgação
Imagens de familiares dos presos, pintadas pela artista plástica carioca Clarissa Campelo


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