Esgoto irregular e barracas de praia poluem cartão postal de Fortaleza

Praia do Futuro era conhecida como um dos melhores trechos do litoral do Ceará. Agora, boletins do governo mostram que água está suja

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

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Silva aponta para o canal dentro da praia: "Só pelo fedor dá pra saber que não é água que passa por aqui".
Há poucos anos, os oito quilômetros de extensão da orla da Praia do Futuro já foram garantia de mar limpo para os banhistas. Hoje, a praia localizada no litoral leste da capital cearense está repleta de pontos impróprios para banho. As galerias pluviais, que deveriam escoar para o mar apenas a água da chuva, recebem lixo e esgotos clandestinos, poluindo praia e oceano.

A Praia do Futuro e suas barracas compõe um dos principais cartões postais do Ceará, um dos locais de lazer mais procurados pelos fortalezenses nos feriados e finais de semana. Os ventos fortes e as ondas do mar morno também atraem praticantes de diversos tipos de esportes náuticos. Isso faz do mar da Praia do Futuro o mais concorrido do Ceará.

O problema é que, nos últimos anos, os boletins sobre a balneabilidade dessa faixa litorânea acenderam um sinal de alerta: a praia está ficando poluída. Segundo o último boletim de balneabilidade divulgado pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), 14 dos 31 pontos monitorados estão impróprios para banho nas praias de Fortaleza. Isso porque não choveu no período próximo a última segunda-feira (20), data em que as amostras foram coletadas.

De acordo com o gestor ambiental da Semace, Lincoln Davi Mendes, quando chove esse número aumenta, e os locais próprios para banho na Praia do Futuro e no Caça e Pesca se tornam escassos. Lincoln explica que a chuva invade a rede de drenagem e leva junto lixo e outros detritos para as galerias pluviais.

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Canal leva água poluída para o mar da Praia do Futuro
Ao passo que a Praia do Futuro caminha para um quadro crônico de poluição, o setor centro da orla de Fortaleza começa a apresentar algum progresso. Praia de Iracema, Náutico e Mucuripe iniciaram o processo de urbanização mais cedo, sofreram por muitos anos com a poluição das praias e, apesar de estarem em uma região mais populosa, agora começam a aparecer nos boletins de balneabilidade como próprias para banho. “É provável que o saneamento básico esteja contribuindo para isso”, pondera Lincoln Davi, lembrando que, no Náutico, uma imensa galeria pluvial ainda leva muitos dejetos para o mar próximo à tradicional Feirinha da Beira-Mar.

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Uma das "barracas" da Praia do Futuro, em Fortaleza: elas evoluíram e se tornaram complexos de lazer à beira mar
Poluição e mau cheiro

Na terça-feira (22), a reportagem do iG percorreu a orla da Praia do Futuro e identificou três galerias pluviais que estavam escoando água e detritos. Como não havia chovido na data nem no dia anterior da visita do iG , o comerciante Luiz Pereira da Silva só vê um motivo para a vazão: a presença de esgotos clandestinos.

Silva é proprietário de uma barraca na Praia do Futuro há 37 anos. “Quando cheguei por aqui, era tudo deserto. Não tinha casas, nem todas essas barracas de praia”. Há sete anos a galeria pluvial foi instalada bem ao lado de seu estabelecimento e o aroma do peixe assado que prepara no restaurante da barraca muitas vezes é encoberto pelo odor que não remete a outra coisa a não ser esgoto. “Aqui era pra passar só água da chuva, mas só pelo fedor, dá pra saber que não é água que passa por aqui”.

Bem em frente à antiga Praça 31 de Março, que está dando lugar para a nova Praça do Futuro, outra galeria com fluxo de água. Próximo da barraca de Silva, perto do estacionamento da barraca Vira Verão, onde se concentra um público jovem formado por praticantes de windsurf, katesurf e surf, outra galeria maior e com uma vazão mais intensa. Mesmo sem chuva, a água que escorre corta a faixa de areia e alcança a água. Não à toa o mar estava vazio. O surfista Júlio César, 23 anos, notou que o mar estava impróprio e preferiu não cair na água. “É uma pena porque aqui é um local de encontro dos amigos e tem boas ondas. Esse esgoto a céu aberto sempre está aí, mas hoje está pior”, lamentou.

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Praia do Caça e Pesca, na foz do Rio Cocó e perto da Praia do Futuro, está suja e imprópria para o banho
Ocupações desordenadas

O monitoramento da qualidade das águas da orla de Fortaleza teve início em 1978. Historicamente, os pontos analisados das praias dos setores centro e oeste da cidade eram os únicos considerados impróprios para banho. O setor leste, onde ficam a Praia do Futuro e a praia do Caça e Pesca, era considerado um oásis livre de poluição. A ocupação desordenada, no entanto, está mudando esse cenário, dizem as autoridades.

Daniel Aderaldo/iG
Mar do Naútico apresentou melhorias nos últimos boletins e está se tornando própria para banho
Prefeitura de Fortaleza e Governo do Ceará apontam as ocupações irregulares como as responsáveis por despejar esgotos clandestinos nas galerias, poluindo a orla. Em 2007, município e Estado deram início ao programa de Despoluição da Orla Marítima para combater esse problema.

Hoje, o programa é executado pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e Secretaria do Meio Ambiente da Prefeitura (Semam) e atualmente está percorrendo os imóveis localizados nas áreas entre Praia do Futuro e Caça e Pesca, com o objetivo de identificar ligações clandestinas de esgoto em galerias e rede de drenagem pluvial.

Cagece e Semam dizem que a fiscalização é diária. Imóveis e as barracas de praia recebem atenção especial. Somente no primeiro trimestre de 2011, já foram realizadas 471 visitas, 64 imóveis apresentavam algum muito de irregularidade.

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