"Discotecas sobre rodas" migram para vizinhos de Fortaleza

Capital do Ceará proibiu o uso do aparelho. O resultado foi que as competições foram para as cidades da região metropolitana

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

Na praia eles não deixam que se ouça o barulho do mar. Na praça obrigam que as conversas sejam altas e na rua de casa atrapalham o sono e a tranquilidade das pessoas. A verdadeira invasão sonora promovida pelos aparelhos de som automotivo de grande porte conhecidos como “paredões de som” levou Fortaleza a criar uma lei que proíbe o uso desses equipamentos . A conscientização que a discussão em torno do problema trouxe e a fiscalização mais rigorosa, contudo, provocaram a migração do problema para municípios da região metropolitana.

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Na capital cearense, onde os paredões de som com capacidade de inundar vários quarteirões com o volume alto são tão populares quanto odiados, foi preciso criar uma lei específica para acabar com os abusos.

A chamada "Lei do Paredão" , em vigor desde o dia 22 de março deste ano, visa coibir a utilização desses equipamentos em vias, praças e demais logradouros públicos, além de espaços privados de livre acesso ao público, como postos de combustíveis e estacionamentos.

Um dos aspectos curiosos do uso que se faz dos paredões de Fortaleza é o local em que eles costumam fazer mais sucesso.

Daniel Aderaldo/iG
"Paredão" de som no Ceará: a praga urbana foi proibida por lei no Estado
Festa na rua

Os jovens que lotam as maiores casas de forró e boates da cidade muitas vezes não precisam comprar ingresso e entrar em um estabelecimento para dançar e ouvir música. Carros que são verdadeiras discotecas sobre rodas promovem suas próprias festas do lado de fora.

Onde o som dos shows não alcança, sobram veículos fazendo as vezes de trios elétricos, chegando a provocar rivalidade para saber quem dispõe do equipamento mais potente, e com a “melhor seleção musical” e ganhar mais atenção. O repertório principal é forró eletrônico, seguido do funk carioca que se popularizou no Ceará nos últimos anos.

De acordo com o gerente de licenciamento da Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semam), Júlio César Costa, a apresentação do projeto de lei pelo vereador Guilherme Sampaio (PT) na Câmara Municipal de Fortaleza trouxe à tona uma discussão, gerando uma conscientização entre a população fortalezense que, por si, diminuiu o problema. Porém, está longe de acabar.

No entorno das casas de forró, nos bares das áreas nobres da cidade, nas churrascarias e nos postos de gasolina da periferia, a população ainda sofre com a poluição sonora. Segundo Júlio Cesar, em uma operação realizada no dia 7 de maio a Semam apreendeu quatro equipamentos. Atualmente, 120 se encontram recolhidos na sede da Guarda Municipal.

O maior número de denúncias está vem da Regional V, onde ficam bairros populosos como Conjunto Ceará, Siqueira, José Walter, Vila Peri e Bom Jardim. É também por onde passa a avenida General Osório de Paiva, que concentra dezenas de churrascarias e casas de forró ao longo de seus 14 quilômetros de extensão.

Devemos atentar para a gravidade social das repercussões do barulho causado pelos paredões, infligindo a muitas pessoas sérios gravames a sua saúde, além de estimular conflitos e brigas entre vizinhos, intranquilizando o cotidiano das pessoas”

Vivendo "dentro" do paredão

A reportagem do iG esteve em uma dessas churrascarias da avenida em questão, localizada no barro Vila Peri, para observar o movimento. Aparentemente, os clientes da Churrascaria Leblon não se dão por satisfeitos com a música ao vivo do ambiente. Apesar de nenhum dos carros estacionados em frente ao local rebocar um paredão de som, a caixa acústica a bordo do porta-malas de um veículo era suficiente para inundar de músicas um raio de 15 metros.

Enquanto no interior do estabelecimento um tecladista tenta animar sozinho cerca de 100 fregueses, na calçada dez pessoas ouvem no último volume músicas que a reportagem conseguiu identificar como sendo da banda cearense Aviões do Forró.

Migração do paredão

Apesar da maior fiscalização em Fortaleza, os paredões estão migrando para os municípios da região metropolitana de Fortaleza.

Para montar um paredão de som, os gastos chegam ao valor de um carro popular zero quilômetro. Desta forma, os apreciadores do som automotivo de alta potência e última geração acabaram migrando para municípios como Eusébio e Aquiraz para realizar suas competições.

A legislação municipal prevê o licenciamento para os praticantes dessa espécie de passatempo que se assemelha ao car tuning – prática que consiste em personalizar automóveis modificando rodas, suspensão, carroceria, pintura e motor.Contudo, ninguém jamais procurou a Semam após a lei entrar em vigor para pedir a liberação da prática. “O problema é que em Fortaleza praticamente não existem mais locais desertos onde se possa realizar essas competições sem incomodar a vizinhança”, explica o titular da Semam, Deodato Ramalho.

O projeto de lei do deputado Dedé Teixeira (PT) que tramita na Assembleia Legislativa do Ceará, pode ser a solução para a população desses municípios. A proposta que ainda tramita no Legislativo cearense modifica a Lei do Silêncio, de 2005, para ampliar a proibição dos paredões de som a todos os municípios do Estado. “As alterações visam deixar mais clara a proibição dos paredões de som. Em municípios vizinhos a Fortaleza ou no Interior permanecem as reclamações”, justifica o petista.

No Congresso Nacional já tramita um projeto de lei semelhante ao que foi aprovado na Câmara Municipal de Fortaleza. O autor é o deputado federal cearense Artur Bruno (PT). A justificativa do parlamentar para apresentar o projeto vai além da questão da poluição sonora. “Devemos atentar para a gravidade social das repercussões do barulho causado pelos paredões, infligindo a muitas pessoas sérios gravames a sua saúde, além de estimular conflitos e brigas entre vizinhos, intranquilizando o cotidiano das pessoas”.

“No âmbito federal o que verificamos foi a omissão legislativa em definir normas gerais que procurem regular a política de combate a poluição sonora, o que se constitui em uma grave lacuna que precisa urgentemente ser sanada”, acrescenta Bruno.

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