Contra 'novo cangaço', Ceará cria polícia itinerante para o interior

Bandidos sitiam cidades, fazem tocaias, montam barricadas e atiram contra delegacias em uma versão mais "pesada" de Lampião

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

A Polícia Militar do Ceará criou um comando especial para combater a ação de quadrilhas de assaltantes apelidadas por especialistas em segurança pública de “novo cangaço”. Os bandos agem em grupos de 10 a 15 homens assaltando bancos de pequenos municípios. Eles sitiam cidades, fazem tocaias, montam barricadas, atiram contra delegacias e usam armamento pesado numa versão mais "pesada" de Lampião.

Somente de março até o começo julho deste ano foram registrados 13 assaltos a bancos no interior do Ceará. No último dia 13, uma quadrilha de 15 homens levou R$ 2 milhões em dinheiro de um carro-forte , na rodovia estadual CE-359, distrito de Triunfo, município de Ibaretama (a 120 km de Fortaleza). Na ação, eles bloquearam a rodovia com um caminhão-baú roubado, atiraram contra o veículo blindado com tiros de fuzis e arrombaram a porta e o cofre com explosivos.

Daniel Aderaldo/iG
Policiais participam de treinamento do Comando Tático Rural, unidade especial criada no Ceará para combater o "novo cangaço"
O primeiro assalto a banco do ano foi em março, quando 15 homens assaltaram uma agência do Banco do Brasil do município de Cariús (a 418 quilômetros de Fortaleza), que tem cerca de 20 mil habitantes. Os criminosos dinamitaram o cofre do banco e trocaram tiros com a polícia local. A partir daí começou uma sequência de ações semelhantes em Independência, Miraima, Pires Ferreira, Groaíras, Parambu, Lavras da Mangabeira, Apuiarés, Viçosa do Ceará, Caridade e Quiterianópoles.

“São quadrilhas organizadas, que atuam em todo o Brasil. O Ceará, hoje, detém um dos menores índices, com 13 ações até agora. São Paulo lidera com 283 ações. No Nordeste, a Bahia já registra 61 ações”, compara o titular da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), coronel Francisco Bezerra.

Há três pontos em comum entre esses crimes. Todas as vezes os bandidos conseguiram escapar, as cidades assaltadas têm menos de 50 mil habitantes e elas ficam a uma distância considerável da capital.

Eles reproduzem de forma moderna táticas antigas, pois usam armamentos pesados e são extremamente aparelhados”, diz especialista

A razão para isso é evidente, segundo o diretor da Academia Estadual de Segurança Pública (Aesp), professor César Barreira. “Esses pequenos municípios são desguarnecidos. O efetivo policial é escasso”, reconheceu à reportagem do iG . Com isso, os bandidos rendam os poucos homens com facilidade. “O Estado nunca vai poder ter o número ideal de policiais em todas as cidades do interior.”

A carência de efetivo policial, contudo, não é o único fator levado em consideração por esses bandos na hora de escolher uma cidade para assaltar. O pouco desenvolvimento urbano dos municípios facilita a fuga. Existem muitos atalhos e trilhas pouco conhecidas, por exemplo. Tudo isso facilita a fuga dos bandidos.

"Novo cangaço"

Até o início do século passado, os cangaceiros que cometiam crimes no interior nordestino conheciam como poucos as veredas que cortam a caatinga. Eles dominavam as rotas de fuga e os esconderijos de difícil acesso. Por essa razão tinham tanto êxito ao fugirem dos “macacos” – era como se referiam aos policiais. Essa é uma característica comum entre o antigo e o “novo cangaço”.

As semelhanças não ficam por aí, de acordo com César Barreira. Ele aponta três características marcantes nesses bandos, também comuns ao cangaço. Eles sitiam as cidades, criando barreiras nas entradas e saídas das sedes dos municípios, armam tocaias contra a polícia local e atuam em grupos. “Eles reproduzem de forma moderna táticas antigas, pois usam armamentos pesados e são extremamente aparelhados”, explicou.

Um dado do setor de inteligência da polícia do Ceará é que os “cabeças” desses criminosos não pertencem ao interior do Ceará. Os bandos são comandados por pessoas que não conhecem a região. No entanto, para realizar as ações, eles recrutam a população local e estudam minuciosamente o alvo antes de realizar o delito. “São, na sua maioria, oriundos de outros Estados, com predominância de Pará, Maranhão, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Também identificamos membros do Primeiro Comando da Capital (PCC)”, informou o secretário de Segurança.

Polícia rural "itinerante"

Para combater o “novo cangaço” a Secretaria de Segurança Pública do Ceará criou o Comando Tático Rural (Cotar). São policiais experientes – alguns inclusive com passagem pela Guarda Nacional, força especial criada pelo governo federal para situações de emergência.

Dois dos três helicópteros da Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas (Ciopaer) foram colocados no interior por determinação do secretário de Segurança, coronel Francisco Bezerra para o uso dos policiais.

Esses pequenos municípios são desguarnecidos. O efetivo policial é escasso”, diz especialista

O Cotar vai atuar de forma itinerante. Eles cobrirão o Estado por regiões. A grande diferença desse grupamento para outros como, o Batalhão de Choque, é que eles poderão se deslocar de forma mais ágil até o local do crime com as aeronaves e terão uma visão panorâmica da geografia do local do assalto.

São cerca de 70 policiais que estão sendo treinados para utilizar de forma mais eficaz os helicópteros. Eles também vão portar armas de grosso calibre e suprimentos para longas perseguições no meio da caatinga. “O Cotar vem sendo pensado desde o início da atual gestão, em função da necessidade que identificamos de oferecer apoio operacional a determinadas regiões do Estado”, explica o coronel Bezerra.

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