Com greves em Fortaleza, criança de 7 anos nunca foi à escola

Docentes da capital do Ceará fazem greves sucessivas desde 2008. O resultado é uma geração de crianças que mal foi à escola

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

As crianças estão matriculadas, o material escolar está lá, guardado, mas elas nunca foram à escola - diferente dos seus colegas das redes estadual e privada, que estão experimentando os últimos dias do período que antecede o esperado mês de julho, e com ele, as férias.

O principal motivo é a greve dos professores da rede municipal de Fortaleza, que já dura quase dois meses . Esta greve é parte de uma sucessão de paralisações que vem tomando a capital do Ceará. O calendário escolar da rede municipal está prejudicado desde 2008, quando aconteceu o primeiro protesto dos docentes. O ano letivo de 2010 terminou em abril de 2011, por exemplo. 

Daniel Aderaldo/iG
Enquanto as aulas não chegam, menino apenas finge que lê: por causa da greve dos professores em Fortaleza, caderno está vazio
Na última sexta-feira (17), em assembleia, os professores decidiram continuar a greve , mesmo após o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) ter declarado a ilegalidade do movimento . Eles reivindicam aumento de  salário, mas a Prefeitura de Fortaleza afirma que o vencimento básico dos professores está acima do piso nacional estabelecido pelo Ministério da Educação, que é de R$ 1.187.

Enquanto o impasse não se resolve, boa parte dos 220 mil alunos matriculados nas 420 escolas do município ainda não teve aula referente ao ano letivo de 2011. Os mais prejudicados são os alunos egressos do ensino infantil. Essas crianças, de seis e sete anos de idade, somam 16.501 mil alunos que não sabem ou pouco sabem ler e escrever. Elas nunca foram à escola.

Caderno vazio

Quando a reportagem do iG chegou à comunidade do Jagatá, uma vila sem calçada nem saneamento, localizada no bairro Vila União, periferia de Fortaleza, a família de P.T.C, sete anos, teve dificuldade para encontrá-lo. O que seria o horário de aula para o garoto se transformou em tempo ocioso e mais uma preocupação para a dona de casa Fátima da Silva Teixeira.

Enquanto as aulas não começam, a única coisa que P.T.C faz é brincar na rua e, na maior parte do tempo, onde os olhos da mãe não alcançam. O caderno que ele finge ler enquanto a reportagem conversa com sua mãe não tem uma palavra escrita. O pequeno nunca foi para a escola e não sabe ler ou escrever. Ele está matriculado na Escola Municipal de Ensino Infantil e Fundamental Haroldo Jorge Braun Vieira.

Zuila Maria da Silva Teixeira, dona de casa, mãe de seis filhos. Quatro deles estão em idade escolar. A caçula Z.T.O, seis anos, é uma delas. Ela deveria ter iniciado o processo de alfabetização também na Escola Haroldo Jorge Braun Vieira, mas, assim como o primo, ainda mal sabe como segurar um lápis.

Queda de braço

Na queda de braço que travam Prefeitura de Fortaleza e os professores em greve, a professora do departamento de Teoria e Prática do Ensino da Universidade Federal do Ceará (UFC), Ercília Maria Braga de Olinda, doutora em Educação Brasileira, aponta os alunos que estão iniciando a educação básica como os maiores perdedores. Isso porque há uma interrupção no processo de adaptação que esses alunos iniciaram na pré-escola, de acordo com ela: “A criança vence o período e, de repente, há uma ruptura e passa meses sem ir à escola”.

A demora no início do ano letivo da rede municipal e o descompasso que isso acarreta em relação aos calendários da rede estadual e de ensino privado também é um transtorno para os alunos mais velhos. Com a disparidade nesses calendários, o estudante que está matriculado no 9º ano pode ter problemas para ingressar no ensino médio, caso chegue a 2012 sem ter concluído o ensino fundamental. Fortaleza tem 5.803 alunos nessa situação.

Esse é um cenário que tem grande probabilidade de se confirmar, já que o ano letivo é constituído de 200 dias de aula e 2011 já está na metade. Sandra Nogueira tem uma filha matriculada na Escola Municipal Professora Belarmina Campos, no bairro Vicente Pinzon. A mãe teme que o atraso atrapalhe os planos de Ana Clara Nogueira, 14 anos, de cursar o ensino médio no Instituto de Educação, Ciência e Tecnologia (IFCE). “Ela está preocupada com a possibilidade de passar no exame, mas ainda não ter concluído o ano para se matricular no IFCE”.

Calendário

A presidente do Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação do Ceará (Sindiute), Gardênia Baima, diz que, apesar da demora para o início das aulas, o importante é que a calendário escolar seja cumprido e os conteúdos repassados na integra aos alunos.

Em nota, a Secretaria Municipal de Educação (SME) informou que todos os dias de aula serão repostos e o calendário letivo será ajustado para cumprir o mínimo de 800 horas/aula obrigatórias, distribuídas em no mínimo 200 dias letivos, conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). A Secretaria de Educação do Município já estuda como repor as aulas aos sábados.

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