Artesão cearense leva couro do cangaço à passarela da SPFW

Em 1938, Lampião pediu uma sandália ao pai de Espedito Seleiro. Muitos anos depois, ele transformou o molde em tendência fashion

Daniel Aderaldo, iG Ceará |

Quando Virgulino Ferreira, de alcunha Lampião – o mais famoso e temido cangaceiro do sertão nordestino –, desenhou o molde de uma sandália com sola retangular, para confundir os rastros deixados pelo caminho, ele não sabia, mas estava criando um estilo. Hoje, “a sandália do Lampião” é a marca do artesão cearense Espedito Veloso de Carvalho, de 72 anos, conhecido apenas como Espedito Seleiro. Ele parou de vestir vaqueiros e agora se dedica à arte de trabalhar em couro, fazendo calçados e acessórios.

Divulgação/Secretaria de Cultura do Ceará
Espedito Veloso de Carvalho, de 72 anos: molde direto de Lampião
Os “croquis” de Lampião, guardados pelo pai de Espedito Seleiro, ainda hoje são inspiração para o trabalho do artesão cearense. O rei do cangaço gostava de ornamentar as vestimentas usadas por ele e por seu bando. Um dia, teve a ideia de fazer um calçado com um solado com as partes da frente e de trás idênticas. Servia para confundir e despistar a polícia que sempre estava no seu encalço. Em 1938, quando o grupo de cangaceiros liderado por Lampião esteve, como tantas vezes, na região do Cariri, pediu para um de seus "cabras" encomendar a um conhecido artesão local novas peças. Mandou o desenho de como deveriam ser os calçados.

“Meu pai, o Raimundo Seleiro, estava fazendo uma sela no alpendre de casa, aí chegou um homem e perguntou se ele poderia fazer umas alpargatas de couro com o mesmo material da sela para cavalo. Ele explicou que não era bom nisso, que trabalhava fazendo gibão, chicote, chapéu e sela para vaqueiro, mas aceitou. Depois, quando descobriu que era para o coronel Virgulino, ficou todo se tremendo e nem quis cobrar”, conta, rindo, o mestre no ofício.

Reivenção

Divulgalção/Secretaria de Cultura
As sandálias Maria Bonita
Mais tarde, Espedito Seleiro, o quarto da geração de mestres em couro, ainda aos oito anos aprendeu com o pai o ofício. “Cada lapada era uma lição. Foi a melhor coisa do mundo pra mim, porque eu aprendi ligeiro”, relembra. A quarta geração de seleiros vive na pequena Nova Olinda, no Cariri cearense, a 552 quilômetros de Fortaleza, mas seu trabalho já compôs coleção de grife internacional, foi apresentado em desfile na São Paulo Fashion Week e exportado para vários países ao redor do mundo.

A sandália do Lampião foi só o começo na guinada que Espedito deu na carreira, forçado pela necessidade. “Meu pai falava que a dor ensina o cabra a gemer. Quando estava acabando, diminuindo o trabalho para os vaqueiros, eu fui pensando 'puxa vida, a família grande, crescendo, pai faleceu...' Eu tinha que arrumar o feijão para dar a esse povo todo. Perdi muita noite de sono desenhando peça. Deus me deu uma estrela e comecei a fazer bolsa e sandália”, conta ele. “Quando o dia amanhecia eu ia fazer. No comércio ia vendo o que o povo gostava mais, o que se admirava mais. Ia prestando atenção. Quando fiz a sandália do Lampião e ela ficou famosa, imediatamente fiz a da Maria Bonita”.

As cores

O colorido das peças de Espedito passou a ser uma de suas principais marcas. É difícil ir ao ateliê e loja do artista no centro de Nova Olinda e não se encantar com a riqueza de tonalidades. O processo de criação desse colorido tem um bastidor curioso. “Perdi tempo com isso aprendendo a tingir. Tinha tinta que ficava feia feito urubu. Mas a cor tão feia era a primeira que vendia. Nem é marrom nem é preta. É cor de burro quando foge”, brinca.

A fama que Espedito ganhou no mundo da moda com seus cintos, calçados, bolsas e carteiras multicoloridos acabou se espalhando e ele recebeu uma encomenda como há tempos não havia. Era para fazer gibão, sela, chicote e bota. A indumentária de um legitimo vaqueiro do sertão foi usada pelo ator Marcos Palmeiras no filme “O Homem que desafiou o Diabo”.

Hoje o cabra passa por mim e nem fala. Pensa que eu trabalho só pro povo de fora, e que não sou mais o mesmo. Mas o que eu faço é por prazer, e ainda faça melhor e mais caprichoso se for para um vaqueiro”

As origens

Com a profissão do vaqueiro em extinção, os gibões e chapeis do ateliê se tornaram mais uma atração para turista ver, compondo junto com o próprio Espedito e seu local de trabalho uma espécie de cartão-postal. Algo que causa certa melancolia nesse mestre do couro. “Hoje o cabra passa por mim e nem fala. Pensa que eu trabalho só pro povo de fora, e que não sou mais o mesmo. Mas o que eu faço é por prazer, e ainda faça melhor e mais caprichoso se for para um vaqueiro”, conclui.

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