Presos lapidam pedras e produzem semijoias no Ceará

Trabalho rende aos detentos 75% de um salário mínimo e remição de pena - para cada três dias trabalhados, um dia a menos de pena a cumprir

Daniel Aderaldo - iG Ceará |

Juliana de Queiroz/ Divulgação
Antonio Altenor Silva lapida, poli e molda uma pedra bruta de cor violeta

Antonio Altenor Silva lapida, poli e molda uma pedra bruta de cor violeta que, há poucos dias apenas, descobriu se tratar de um mineral extraído de alguma jazida de Caetité, na Bahia. A ametista bruta ganha contornos, brilho e vira uma semijoia pelas mãos de um detento, em uma fábrica dentro de um presídio do Ceará.

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“Acho muito bonito tudo isso. É um trabalho gratificante transformar pedra em alguma coisa que pode ser usada”, diz Antonio, um dos 20 presidiários que já começaram a trabalhar na fábrica inaugurada na última semana no Instituto Presídio Professor Olavo Oliveira (IPPOO) II, no município de Itaitinga, região metropolitana de Fortaleza.

Preso desde 2009, condenado por homicídio, o pai de família de 52 anos tem o ensino fundamental incompleto e nunca chegou a aprender um ofício de verdade, embora tenha trabalhado com carteira assinada em um emprego que não exigia especialização. “Mas desde que entrei na unidade estou trabalhando e quero ter uma chance nova”, pondera.

Chance nova é o que terão também os sócios da empresa instalada no presídio. Atualmente restrita ao mercado local fabricando anéis de formatura e alianças de casamento, a fábrica deve chegar a empregar 90 homens até julho de 2013 e tem como meta produzir 12 mil peças de semijoias e bijuterias e 18 mil pedras por mês, expandindo os negócios com brincos, gargantilhas e pulseiras.

Os 20 primeiros detentos estão em treinamento para depois ensinar as técnicas aos que se juntarão a eles. Os empregados da fábrica no presídio recebem o equivalente a 75% de um salário mínimo e têm o benefício da remição de pena. Para cada três dias trabalhados, um dia a menos de pena a cumprir.

“A metáfora de transformar pedras brutas em materiais a serem apreciados se encaixa muito bem na visão defensorial que nós trazemos”, afirma a secretária de Justiça do Ceará, Mariana Lobo.

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Embora o sistema prisional do Ceará padeça de superlotação, condições subumanas de higiene e constantes fugas, como o iG já mostrou em diversas reportagens, o IPPOO II tem funcionado como uma espécie ilha de projetos pilotos e apresentando iniciativas simples que dão resultados no processo de ressocialização dos presos.

Em maio de 2011, o iG visitou o presídio para mostrar uma exposição de artes nas alas onde os detentos passam a maior parte do dia . Existem ainda exemplos como a escola que atende 93 alunos, o projeto de manutenção e sustentabilidade da unidade, batizado de Presídio Verde, que emprega 30 egressos na reciclagem de uma tonelada de lixo por semana.

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