Caso Battisti: Itália chama para consultas seu embaixador no Brasil

A Itália decidiu chamar para consultas seu embaixador no Brasil depois da negativa de Brasília de extraditar Cesare Battisti, ex-ativista de esquerda condenado por diversos assassinatos, anunciou nesta terça-feira o ministério italiano das Relações Exteriores.

Redação com AFP |

"Depois da grave decisão tomada no caso Battisti pelo procurador-geral (do Brasil), o ministro das Relações Exteriores, Franco Frattini, decidiu chamar para consultas em Roma o embaixador da Itália no Brasil, Michele Valensise", informou a chancelaria em comunicado.

"Battisti é um terroristas que não merece em absoluto o estatuto de refugiado político", enfatizou Frattini.

Em telefonema ao colega brasileiro Celso Amorim, Frattini exigiu novamente a extradição daquele que foi condenado à prisão perpétua na Itália por quatro homicídios cometidos no final da década de 70.

O caso está, agora, em mãos do Supremo Tribunal Federal, cujo presidente retornará do recesso no dia 2 de fevereiro.

E divide, também, o Fórum Social Mundial, o maior evento planetário dos movimentos sociais antiglobalização inaugurado nesta terça-feira em Belém, Pará.

Na noite de segunda, o procurador-geral da República do Brasil, Antonio Fernando de Souza, recomendou ao Supremo Tribunal Federal que arquivasse o pedido de extradição da Itália para Cesare Battisti, detido no Rio de Janeiro em março de 2007 depois de ter fugido da França, onde permaneceu entre 1990 e 2004.

"Esperávamos um novo exame e uma reflexão mais profunda: o fato de decidir depois de somente 48 horas sem ter analisado objetivamente (o caso) parece como uma vontade de não decidir e de cobrir simplesmente a decisão política do ministério da Justiça", comentou Franco Frattini, citado pela imprensa italiana.

"Isso é francamente inaceitável e por isso convocamos a Roma o embaixador para consultas neste caso. Quero ver com ele as opções que temos", acrescentou o chefe da diplomacia italiana.

Frattini enfatizou, no entanto, que o Brasil "é um grande amigo da Itália desde sempre" e que, "por este motivo, não esperávamos uma reação tão grave".

Em 13 de janeiro, o Brasil concedeu asilo político a Battisti, ex-chefe do grupo "Proletários Armados pelo Comunismo" e condenado em 1993 pela justiça italiana à prisão perpétua por quatro assassinatos cometidos anos 1970.

No parecer de Antonio Fernando de Souza, a concessão de refúgio significa automaticamente a extinção do processo de extradição solicitado pela Itália.

A decisão de conceder asilo provocou indignação na Itália, tanto por parte das autoridades políticas como das famílias das vítimas.

Mas a medida de convocar o representante diplomático não foi aprovada por unanimidade. "Chamar o embaixador não é a melhor solução, já que não leva a nada e não tem consequências. Será preciso enviar depois o embaixador ao Brasil. Estamos num beco sem saída", afirmou o renomado ex-diplomata italiano Sergio Romano, colunista do Corriere della Sera.

"É uma dessas reações obrigatórias que os políticos acreditam que devem adotar o mais rápido possível", acrescentou.

"O Brasil neste momento se sente forte devido a seus êxitos econômicos e ao modelo que representa. É uma lástima que não tenha compreendido que o terrorismo na Itália representa uma ferida aberta", acrescentou.

Dois ministros do governo conservador de Silvio Berlusconi pediram represálias contra o Brasil.

"Espero que Silvio Berlusconi e o governo italiano decidam algo quando será realizada este ano a cúpula dos países do G8. O Brasil não é parte do G8, mas não se pode alcançar acordos com um Estado que considera que uma pessoa condenada pela justiça corre o risco de ser torturada ou assassinada", comentou Roberto Maroni, ministro do Interior.

O vice-ministro das Relações Exteriores, Alfredo Mantica, também propôs devolver o desagravo anulando uma partida de futebol amistosa entre a Itália e o Brasil, programada para 19 de fevereiro, em Londres. Porém, a medida foi descartada nesta terça-feira pelo próprio governo italiano .

Na semana passada, uma série de atos simbólicos diante das sedes diplomáticas do Brasil na Itália marcou o protesto de vários políticos italianos contra a decisão de Brasília.

Reunidos em frente à elegante sede da embaixada brasileira em Roma, quatro manifestantes deitaram no chão e se cobriram com lençóis manchados de vermelho, representando os quatro assassinatos pelos quais Battisti foi condenado na Itália, informou a rede de notícias Sky TG24.

O ato foi organizado por dois pequenos partidos de tendências opostas: o Itália dos Valores, de esquerda, fundado pelo ex-juiz anticorrupção Antonio di Pietro, e o Movimento pela Itália, de extrema direita, criado pela ex-deputada Daniela Santanché, que liderou o protesto de Milão, no norte do país.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que seu governo não está disposto a submeter a decisão a uma revisão.

Lula enviou na sexta-feira uma carta pessoal a seu colega italiano Giorgio Napolitano - que lhe expressou sua grande surpresa pela decisão - explicando as razões para conceder refúgio a Battisti e garantindo a independência e a neutralidade da decisão adotada pelo ministro da Justiça, Tarso Genro.

Depois que a França se negou a entregar, em outubro passado, outro ex-militante das Brigadas Vermelhas, Marina Petrella, o asilo político concedido a Cesare Battisti priva a Itália de outro conhecido ativista dos violentos "anos de chumbo", durante os quais foram cometidos cerca de 600 atentados, que causaram a morte de cerca de 300 pessoas.

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