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Carta a um fumante

Carta a um fumante Por Por Walter Labonia Filho (*) São Paulo, 21 (AE) - Caro(a) Fumante: Sou um ex-fumante, estou há 14 anos sem fumar e não me arrependo disto. Eu fumava cerca de um maço por dia e só consegui parar quando estava no terceiro mês de tratamento de uma tuberculose pulmonar.

Agência Estado |

..!!! Parei na passagem do ano de 1993 para 1994. Fumei o último, faltando 5 minutos para a meia-noite.

É claro que eu sabia que o cigarro provoca câncer, enfarte, enfisema, impotência, etc...Nada disso, porém, foi forte o bastante para me fazer parar. Como, de outra vez, já havia parado por cinco anos e pude sentir os benefícios da abstinência, apeguei-me ao lado positivo de ser um ex-fumante e, NÃO, ao lado negativo de ser um fumante.. Assim, quando parei, fiquei surpreso ao notar que ficava totalmente desperto logo de manhã.

Antes, necessitava de um bom tempo e uns dois cigarros para realmente acordar. (Esta obnubilação mental corre por conta do monóxido de carbono, o mesmo que sai do escapamento dos automóveis, em excesso no sangue do fumante). Foi muito bom perceber que ainda me restava algum olfato quando, saindo do trabalho, senti o perfume de uma moça debruçada sobre um muro, perto de onde eu estacionava meu carro. Pude notar que minhas preferências alimentares eram aquelas que faziam "boca-de-pito". Foi uma agradável surpresa poder, novamente, apreciar o sabor de um abacaxi, sem gemer de dor por causa da mucosa oral toda irritada pelo fumo.

O fôlego foi ficando cada vez melhor, não havia mais o vexame da risada cheia de catarro ou da tosse constrangedora que teimava em aparecer nos momentos mais impróprios. As roupas não fediam mais, os dedos, a pele, os dentes e o cabelo deixaram de ser amarelados, os lábios, antes cianóticos, tornaram-se rosados e diminuíram os vincos de expressão do meu rosto. Enfim, como muitos me disseram, fiquei mais bonito.

Motivado pelos meus progressos, passei a observar os fumantes e dei-me conta do tempo que eles queimavam nos fumódromos e o quanto se intoxicavam (Uma vez, aguardando um farol de trânsito, registrei, como num filme em câmera lenta, a longa e profunda tragada de um motorista de rosto congesto e escuro e fiquei feliz por ter parado de me envenenar). Assisti a uma palestra de um argentino, professor de Psiquiatria, que disse, com aquele sotaque inconfundível: - "Se eu lhe der para beber o líquido de um frasco em cujo rótulo esteja escrito: 'SUBSTÂNCIA CANCERÍGENA', você beberia?"
Embora estes e outros fatos tivessem melhorado muito a minha auto-estima, dei-me conta de que algo mais importante, profundo e subjetivo, também ocorrera. Sentia-me livre por não ter que fumar para fazer isto ou aquilo, por não ter que me preocupar se tinha ou não cigarros ou se fumando incomodava alguém. Finalmente, livre para anunciar-me como um "NÃO FUMANTE" num restaurante ou por não me importunar com os avisos de "É PROIBIDO FUMAR". Sentia-me livre da nicotina, droga que me escravizara por tanto tempo. A nicotina é uma droga como álcool, maconha, cocaína, capaz de causar dependência, ou seja, como elas, afeta a química cerebral, principalmente no hipotálamo, região do cérebro sede de nossas emoções mais primitivas, interferindo no metabolismo de neurotransmissores como a dopamina e a serotonina.

Deste modo, no plano emocional/psicológico, a nicotina, e as outras drogas, são capazes de proporcionar a quem as usa uma inequívoca sensação de PRAZER (a dopamina é conhecida como o neurotransmissor do prazer, pois é liberada, no hipotálamo, quando, por exemplo, comemos ou fazemos sexo). Por outro lado, a partir do momento em que ela, a nicotina, alterou os caminhos metabólicos normais do cérebro, quando ficamos sem fumar entramos, em SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA, com os sinais e sintomas que todo fumante conhece muito bem (ansiedade, irritabilidade, tremores, insônia, incapacidade de realizar as tarefas mais corriqueiras).

O sofrimento físico e emocional que esta síndrome desencadeia nos faz fumar de novo para aplacar o mal estar, fechando o ciclo vicioso da escravidão pela droga. Aliás, a dependência a qualquer substância química é conhecida, também, como ADICÇÃO (do latim adictus que significa: escravo). Indo mais além, eu fumava quando ficava ansioso, tenso, triste, feliz, preocupado, irado, angustiado, satisfeito, com fome, enfim, TODAS AS MINHAS EMOÇÕES ESTAVAM EMBOTADAS PELA NICOTINA. Em outras palavras, aquele que fumava não era eu mesmo, era eu mais NICOTINA, o que me tornava uma pessoa diferente de quem eu realmente sou.

Parar de fumar, para mim, foi uma experiência fascinante de auto conhecimento. Resultado? Sou melhor do que eu era quando fumava, principalmente porque, hoje, eu vivencio todas as minhas experiências emocionais de FORMA GENUÍNA, sem a interferência de uma substância estranha ao meu organismo que obscureça a minha identidade!

Um cordial abraço.

(*) Walter Labonia Filho é médico e professor de Sivananda Yoga
(walterlabonia@estadao.com.br).

(**) O conteúdo dos artigos médicos é de responsabilidade exclusiva dos autores.

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