Somente aos 40 anos, Jonny Damasceno enfrentou seu medo do volante. Ele conta como venceu uma neurose que lhe impedia de dirigir

Ele se considerava o carona profissional. Depois de bater o carro de um amigo aos 18 anos, na saída de uma balada, o gestor de Tecnologia da Informação Jonny Damasceno ficou se questionando se dirigir era mesmo tarefa para ele. Ficou muito tempo com a carteira no bolso e o carro na garagem. Com quase 40 anos e esta “falha” no currículo, tomou coragem para mudar a situação. “Eu era um cara bem-sucedido profissionalmente, mas não conseguia me sentir bem ao volante e isso me incomodava. Não existia aquele grande desafio na vida a ser superado, que não fosse esse. Então achei que era hora de mudar.” A decisão o levou a procurar a clínica-escola Cecília Bellina. Dez meses depois o tal carona deu lugar a um seguro motorista, dono de uma EcoSport. “Sei que demorei para terminar o curso, mas o mais legal do método é o respeito ao tempo de cada aluno”, contou. E foi lá, na filial da Tijuca, zona norte do Rio, que ele deu a entrevista a seguir:

Aprovado no curso, o gestor de TI Jonny Damasceno brinca com o instrutor pedagógico Willian Queiroz, que o ajudou a perder o medo do trânsito
George Magaraia
Aprovado no curso, o gestor de TI Jonny Damasceno brinca com o instrutor pedagógico Willian Queiroz, que o ajudou a perder o medo do trânsito
iG: Como você acha que surgiu o medo de dirigir?
Jonny: Na adolescência, a turma do bairro tinha o sonho de tirar carteira e ter seu próprio carro. Na minha época era muito fácil ter uma habilitação, mas não tive condições de comprar o meu. A primeira vez que peguei o carro de um amigo bati e rolou um trauma. Fiquei me perguntando se não era para ficar no banco do carona. O carro foi ficando em segundo plano, principalmente quando as minhas irmãs começaram a tirar carteira e dirigir para mim.

iG: As mulheres dirigiam para você?
Jonny: Sim, minhas irmãs e até as namoradas, que sempre tiveram carro. Com 27 anos me casei e a minha mulher passou a guiar o carro para mim. Virei o carona eterno e para mim era o melhor dos mundos. Só quando me separei, dois anos depois, é que comecei a sentir falta de dirigir. Com 38 anos apenas é que tomei coragem e comprei o meu primeiro carro. Não dirigia porque não tinha prática, mas achava na minha cabeça que a hora que eu quisesse era só sentar e sair dirigindo.

iG: Você se aventurou a dirigir esse carro alguma vez?
Jonny: Sentava no carro e andava um pouquinho e já sentia o maior desconforto. Começava a suar e tinha taquicardia. Meu medo sempre foi o de machucar alguém, não era o de bater com o carro. Mas bati com esse também, foi traumático e decidi que não queria mais.

Jonny tirou a Carteira Nacional de Habilitação aos 18 anos, mas só aos 40 tomou coragem e enfrentou de vez a fobia ao volante
George Magaraia
Jonny tirou a Carteira Nacional de Habilitação aos 18 anos, mas só aos 40 tomou coragem e enfrentou de vez a fobia ao volante
iG: E nesse tempo todo você não sofreu preconceito?
Jonny: Costumo dizer que o que é bom a gente mostra e o que é ruim, esconde. Quando alguém me perguntava se eu dirigia, eu mostrava a minha habilitação. Eu dizia que preferia ser carona e nos últimos tempos estava botando a desculpa na Lei Seca, um artifício para me proteger e não ficar por baixo.

iG: Quando a história começou a mudar?
Jonny: Quando fiz 40 anos me bateu aquela coisa de estar para completar uma idade emblemática e ter esse desafio pela frente. Às vezes estava em casa no final de semana e não tinha a chance de pegar o carro e passear, sair por aí, como todo mundo faz. Minha rotina era esticar o dedo e pegar o táxi. Minha mãe me mostrou um recorte de jornal falando da clínica-escola Cecília Bellina, mas não acreditei que pudesse dar certo porque é difícil admitir o medo. Essa coisa de psicólogo, de precisar contar os meus problemas para alguém que não conheço e assim resolver a questão nunca me pareceu uma solução cabível. É muito mais fácil a mulher buscar por essa ajuda porque tem um lado mais sensível, de se abrir, homem não: vai para o bar, enche a cara e desabafa com amigo.

iG: Como foi o processo?
Jonny: Cheguei cético. Fiz o treino prático, o processo de adaptação com carro, que é bem bacana. Porque na auto-escola comum os instrutores não estão nem aí para você, só te ensinam a malandragem de olhar para os cones para fazer a prova. Fiz a terapia de grupo, com certa reticência, até aceitar. Tentei me boicotar, mas percebi que ou enfrentava a questão ou dormia com o fato de que dirigir não era para mim. O homem tem em si seu pior e maior inimigo, se você coloca na sua cabeça que não consegue, não tem ninguém que vá fazer o contrário. Usei o slogan da campanha do Obama: “Yes, We Can”. Demorei 10 meses, mas consegui ter a naturalidade para dirigir com segurança.

Jonny mostra, orgulhoso, a foto do dia da conclusão do curso, que durou 10 meses, no
George Magaraia
Jonny mostra, orgulhoso, a foto do dia da conclusão do curso, que durou 10 meses, no "Mural da Vitória" onde alunos registram seus êxitos
iG: Durante o aprendizado percebeu alguma característica diferente em você?
Jonny: No grupo em que eu estava, a gente percebeu que a maior característica que nos unia era a visão muito perfeccionista da vida. O meu grupo era formado por pessoas de nível, com bons empregos, boa situação financeira, todos bem relacionados e que gostavam de tudo tão perfeito que não se viam na posição de serem prejulgados por outras pessoas na rua. Pensava que se fizesse alguma besteira, alguém ia cravar a mão na buzina e ficar falando de mim o resto do dia. Uma falha demonstrada no trânsito para mim era como dizer que eu era incompetente.

iG: E agora, como se sente?
Jonny: Hoje a minha vida mudou da água para o vinho. Quando entrei aqui, meu carro estava com a minha irmã. No meio do curso disse para ela: perdeu! Eu fiquei tão feliz, que decidi comprar um carro novo. Já fiz algumas pequenas viagens e estou planejando ir com a família do Rio para a Bahia dirigindo. Agora não é mais uma questão de medo, mas de tempo para colocar o sonho em prática.

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