Carnê odontológico compromete saúde bucal

Carnê odontológico compromete saúde bucal Por *Marcelo Rezende São Paulo, 21 (AE) - Há 20 anos, a profissão de dentista era vista pela sociedade como uma das mais lucrativas, ficando atrás apenas de médicos e ao lado de advogados e engenheiros. Já havia, naquela época, profissionais que se dedicavam apenas a atender a população de baixa renda.

Agência Estado |

Geralmente, usavam seus parcos conhecimentos e materiais de segunda mão para atender às necessidades imediatas de seus pacientes - provocando um "boom" de extrações nas classes C e D, que acabou ficando desdentada antes da hora e partindo para o uso da dentadura.

Poucos anos depois, o cenário foi perdendo o viço. Afinal, com a inflação em alta, a primeira coisa que as famílias faziam era "cortar o dentista". O resultado disso foi que milhares de jovens profissionais ou mesmo recém-formados passaram a integrar um grupo em que havia mais mão-de-obra disponível do que demanda. E a crise se instaurou no segmento odontológico. Cuidar dos dentes passou a ser considerado "coisa de gente rica".

Algumas empresas odontológicas e uma parcela ínfima de bons profissionais, entretanto, continuaram apostando e investindo ainda mais nesse mercado, aproveitando a onda do marketing pessoal e da valorização da beleza. Perceberam que se a cirurgia plástica - que era, em princípio, mais supérflua ainda - estava "bombando", de nada adiantava a pessoa ficar com um corpo escultural se não poderia abrir a boca sem constrangimentos.

Hoje, o cenário está mais incrementado. Se, por um lado, há bons profissionais no mercado, que oferecem um serviço bem feito e investem em tecnologia de ponta, por outro lado as empresas de odontologia de grupo acabaram ocupando um espaço deixado por aqueles profissionais dedicados a atender quem não tinha recursos para pagar o tratamento.

Por mais que a popularização da odontologia represente um ganho enorme para a sociedade, há sempre o risco da sua banalização - o que tem se tornado um dos principais entraves para a maioria dos profissionais experientes. Não propriamente aqueles que atuam nas altas esferas, como "dentistas das estrelas", mas aqueles que vêm investindo na capacitação, participando de congressos internacionais, buscando atualização e excelência do serviço prestado.

Esses cirurgiões-dentistas que se fizeram à custa de muito esforço e que mantêm suas clínicas dentro de todas as normas exigidas pela Associação Brasileira de Odontologia e pelo Conselho Federal de Odontologia formam um grupo profissional altamente competente, mas que se sente completamente acuado por um mercado devastador. Isto sem falar nos riscos a que os clientes, ou seja, os pacientes estão sujeitos.

A sedução por um anúncio de página inteira que oferece a boca dos sonhos em troca de um carnê com 36 parcelas, ou ainda planos de tratamento com pagamentos a perder de vista, põe em risco não só uma classe inteira de profissionais competentes e sérios, mas, principalmente, a saúde do povo brasileiro. Ninguém sabe quem são os responsáveis por esses estabelecimentos ou mesmo o nome e a formação dos cirurgiões-dentistas que realizarão todas aquelas intervenções descritas no anúncio.

Essa prática está pondo fim a uma das relações mais próximas dentro do sistema de saúde, que é a o médico/dentista com o paciente. Profissionais respeitados nacional e internacionalmente persistem em seus projetos de odontologia de ponta, investindo no que a ciência tem de melhor para garantir mais saúde, bem-estar e qualidade de vida a seus pacientes.

Afinal, não são poucas as pessoas que preferem contar com profissionais comprometidos com o resultado a longo prazo a optar pelos carnês odontológicos, independentemente do profissional responsável pelo atendimento.

Lamentável, nessa situação de mercado, é notar que há tantos dentistas talentosos perdendo pacientes para um inimigo oculto chamado "promoção". E mais grave ainda é saber que não há muito a ser feito, já que essas empresas estão altamente protegidas do ponto de vista jurídico, além de seus donos serem grandes investidores, não dentistas.

(*) Dr. Marcelo Rezende é cirurgião-dentista, especialista em implantes dentários, diretor da Smiling Dental Care (Manaus, AM), e membro da Sociedade Brasileira de Odontologia Estética.

(**) O conteúdo dos artigos médicos é de responsabilidade exclusiva dos autores.

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