A menos de dez dias do carnaval, as ligas das escolas de samba de São Paulo ainda não definiram o regulamento definitivo para o desfile de 2009, que ocorre nos dias 20 e 21 de fevereiro no Sambódromo do Anhembi. Não foram estabelecidas questões fundamentais como se haverá três ou cinco jurados para cada quesito analisado.

Também estão sendo discutidas quantas agremiações serão rebaixadas para o grupo de acesso e quantas irão para o grupo especial.

A existência de duas entidades, a Liga Independente e a Super Liga, é o motivo da demora para estabelecer normas definitivas para o carnaval paulistano, afirma o assessor de projetos especiais da SPTuris, Luiz Sales. Isso porque agora todos os assuntos precisam ser avaliados pelas duas ligas até que se chegue a um consenso. "Estamos em cima das ligas para que elas resolvam esses pontos logo, até porque há questões estruturais que ainda temos que providenciar", explica. Este é o primeiro ano em que as escolas da elite do carnaval são representadas por duas ligas.

No último final de semana, representantes da Liga Independente e da Super Liga avaliaram 55 candidatos a jurado para o desfile. Escolhidos entre um banco de dados formado em 2002, os selecionados assistiram a um vídeo com desfiles polêmicos, aos quais atribuíram notas e justificativas para os respectivos quesitos. Durante esta semana, as provas serão analisadas por um comitê gestor, que irá finalmente compor a banca. A escolha do número oficial de jurados também depende de quantos serão aprovados. Até as 11 horas de hoje, as assessorias das duas ligas não tinham novidades a respeito de definições.

Sales afirma que o regulamento para o carnaval de 2009 foi entregue no ano passado à SPTuris. No entanto, ele mesmo reconhece que qualquer decisão tomada em assembleia, com representantes das 22 escolas de samba e aprovada por maioria, é capaz de alterar o conteúdo do estatuto. "É como num condomínio: os moradores se reúnem, fazem uma ata e estabelecem as novas normas", explica. A reportagem solicitou uma cópia do regulamento, mas a assessoria da SPTuris negou o pedido sob a justificativa de que ele está "completamente desatualizado".

Desde o racha da Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo, no ano passado, as discussões passaram a ser feitas com a ajuda de um comitê gestor formado pelos presidentes da Liga Independente, Sidnei Carriuolo (presidente da Águia de Ouro), e da nova Super Liga, Thobias da Vai-Vai (presidente da escola alvinegra).

'Fogueira das vaidades'

A escolha de Sidnei para comandar a Liga Independente, em abril de 2008, foi o principal motivo da cisão. Para Thobias da Vai-Vai, a eleição foi "fraudulenta e antidemocrática, feita às pressas para substituir a diretoria anterior, que renunciou". Ele e o candidato derrotado, Paulo Serdan (presidente da Mancha Verde), fundaram então a Super Liga. Embora os presidentes das duas entidades evitem comentar em detalhes os pontos que impossibilitaram a unidade em apenas uma liga, Sidnei avalia que a separação em duas ligas foi uma "fogueira das vaidades". Thobias da Vai-Vai garante que não há um racha, apenas divergências em relação à administração.

A nova entidade representa hoje nove escolas: Vai-Vai, Mancha Verde, Império de Casa Verde, Pérola Negra, Gaviões da Fiel, Unidos do Peruche, Camisa Verde e Branco, Imperador do Ipiranga e Dragões da Real. Já a Liga Independente ficou com 13 escolas: Mocidade Alegre, Unidos de Vila Maria, Rosas de Ouro, Tom Maior, X-9 Paulistana, Nenê de Vila Matilde, Acadêmicos do Tucuruvi, Leandro de Itaquera, Águia de Ouro, Barroca Zona Sul, Acadêmicos do Tatuapé, Morro da Casa Verde e Combinados de Sapopemba.

Hoje o discurso das duas ligas é o mesmo: as divergências foram superadas e o trabalho é feito em conjunto. Mas ninguém explica por que a divisão é mantida. "Não tem clima ruim, não tem picuinha, não tem briga", diz Paulo Serdan, tesoureiro da Super Liga. O presidente da Liga Independente confirma: "Já passamos dessa fase. Com uma liga, duas ligas, três ligas, o trabalho é o mesmo e o carnaval vai ser bom igual, vai ser melhor. Sempre votamos e chegamos a um consenso", diz.

Thobias da Vai-Vai diz que o número fechado de jurados e de escolas que serão rebaixadas sai até amanhã, quando faltará exatamente uma semana para o desfile. Para Sidnei, essa e outras questões pendentes são apenas detalhes. "O que vai mudar para as escolas saber antes do desfile se são três ou cinco jurados, quantas sobem ou quantas caem? Não muda nada. Isso são detalhes", opinou. Ele nega que as decisões estejam sendo tomadas na última hora e argumenta que todos os anos o nome dos jurados só é divulgado meia hora antes do início do desfile, por uma questão de segurança do processo de apuração. No entanto, em 2007 e 2008, por exemplo, quando existia apenas a Liga Independente, o regulamento definitivo, com número de jurados e normas da apuração detalhadas, foi divulgado já na segunda semana de janeiro.

Duas ligas, dois CDs

Com a divisão das entidades, chegou-se a pensar em realizar os desfiles do carnaval paulista em quatro dias, dois para cada liga, mas a proposta não foi adiante. "Os próprios presidentes das escolas chegaram à conclusão de que seria inviável e houve convergência. Não temos quatro dias de sambódromo nem de contrato de transmissão com emissoras", explica Sales.

Ainda assim, neste ano, quem quiser ouvir os sambas-enredo das escolas que desfilarão no Sambódromo do Anhembi terá que comprar dois CDs: um com a trilha das escolas da Liga Independente, outro com as das agremiações que compõem a Super Liga.

Poder

Hoje as ligas não exercem mais o poder que tinham há alguns anos. Desde 2006 o repasse de verbas da SPTuris destinadas aos desfiles é feito diretamente para as escolas de samba - neste ano, cada uma das 14 escolas do Grupo Especial receberá R$ 483 mil, e cada uma das oito agremiações do Grupo de Acesso receberá R$ 273 mil. Antes, era a Liga Independente que recebia todo o dinheiro e distribuía para as escolas, mas uma dívida de ISS acumulada em nome da entidade mudou o procedimento.

"Hoje as ligas são apenas um fórum para o qual as escolas recorrem para tratar de contratos, bilheteria e questões de infraestrutura", diz Sales, da SPTuris. O próprio presidente da Liga Independente, Sidnei, admite: "A liga não apita mais nada desde 2006". Atualmente, as duas ligas paulistas se mantêm com o dinheiro das escolas associadas, que repassam 5% da verba municipal que recebem anualmente da SPTuris.

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