O bruxinho Harry Potter, a boneca Emília, a barata de Kafka e outros personagens da literatura mundial desfilaram pelo Salgueiro, a penúltima escola da primeira noite do Carnaval do Rio. Em busca do bicampeonato, a agremiação vermelha e branca apresentou o enredo Histórias sem fim, centrado no livro, com muitas referências a tramas as mais diversas.

O carnavalesco veterano Renato Lage, que começou sua carreira no grupo em 1977, busca sua sexta vitória no carnaval carioca. Não ousou, mas fez um desfile correto e colorido.

"A gente procurou mostrar as obras mais conhecidas do público, independentemente de classe social. O tema é riquíssimo", disse Lage, ainda na concentração. "Tanto o tambor (o contagiante enredo vencedor de 2009) quanto o livro são instrumentos do homem." Em plena era dos livros eletrônicos, o carnavalesco falou só dos de papel, o que causou certa estranheza.

A escola apostou nas acrobacias. Os malabarismos vieram no abre-alas, que simbolizou o advento da escrita; no segundo carro, uma biblioteca tradicional; e numa ala muito aplaudida, com gorilas tão perfeitos que chegavam a dar medo. Só no abre-alas, a oficina de Gutenberg, havia 55 integrantes da Intrépida Trupe, além de artistas do Cirque Du Soleil. Eles passaram boa parte dos 82 minutos de desfile de cabeça para baixo, mas ainda assim cantavam o samba.

O incentivo à leitura veio no carro da biblioteca: componentes jogavam livros para a plateia. Antes, a bonita comissão de frente veio com 15 monges copistas, figuras que, na Idade Média, transcreviam textos sobre papiros, dando origem aos primeiros livros.

Religião

A religiosidade foi um traço que permeou o desfile - a Bíblia, o Livro dos Espíritos e os escritos que norteiam os hindus foram lembrados em alegorias e fantasias. De clássicos de todas as épocas - de "Os Lusíadas", "Os três mosqueteiros", "Don Quixote", "Alice no País das Maravilhas" e "O Pequeno Príncipe" aos brasileiros "Memórias póstumas de Brás Cubas", "O Sítio do Pica-pau amarelo" e "O diário de um mago" - saltaram tipos como o navegador português, o coelho apressado e a desengonçada Emília - a boneca criada por Monteiro Lobato era o grande destaque do quarto carro, como uma enorme marionete.

A bateria notadamente nota 10 veio vestida de "Ali Babá e os 40 Ladrões" e, à sua frente, estava Viviane Araújo, a supercompetente rainha. De Sherazade, ela teve de dividir as atenções com Sabrina Sato, a musa futurista do Salgueiro, que saiu antes do sexto carro. As baianas encarnaram mães-de-santo saídas de "Tenda dos Milagres". De correntes rompidas e respirando liberdade, os escravos de "Navio Negreiro" fizeram uma bela coreografia. O jogo de xadrez de Harry Potter, sugestão da filha de Lage, foi outra ideia bem executada.

O Salgueiro foi a quinta a desfilar. Veio depois da Viradouro, que fez uma apresentação pouco empolgante. Mas passou ainda sob o impacto da Unidos da Tijuca, a única escola que havia, literalmente, levantado a plateia até então. Para saber se a história do Salgueiro terá ou não final feliz, há de se esperar pela tarde de quarta-feira de cinzas, quando serão divulgadas as notas dos 50 jurados.

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