Carências emocionais abrem com pouco entusiasmo competição em Cannes

Mateo Sancho Cardiel. Cannes (França), 14 mai (EFE).- A falta de estrutura emocional de uma adolescente em Fish Tank, da britânica Andrea Arnold, e as dificuldades afetivas de um homossexual na China filmadas por Lou Ye em Spring Fever marcaram a abertura da sessão em competição do Festival de Cannes com pouco entusiasmo.

EFE |

Arnold e Ye, dois dos diretores menos populares do concurso, abrem caminho para os grandes mestres, e as duas propostas iniciais parecem condenadas a serem obscurecidas pelas 18 obras que ainda serão exibidas na corrida pela Palma de Ouro.

"Fish Tank" se deparou com a faca de dois gumes em que implica quebrar o gelo: encontra o espectador mais receptivo, mas também mais crítico.

A carência afetiva mostrada por Arnold é aquela que marca a vida: a de uma família monoparental cujo código é a violência verbal e o desapego emocional.

"Acho que o trabalho de Andrea funciona com personagens que fazem coisas muito discutíveis, e é interessante que as pessoas saiam do cinema com dúvidas morais", resumiu o ator Michael Fassbender - que também participa de "Inglourious Basterds", de Quentin Tarantino, também em competição -, na entrevista coletiva posterior à exibição.

Arnold, após ganhar o prêmio do júri com "Red Road" (2006), um áspero, original e gélido retrato da vingança, decidiu se concentrar no cinema social através de uma adolescente, Mia, que dá seus primeiros passos emocionais no ambiente mais próximo. Tão próximo que se apaixona pelo namorado da mãe.

A diretora encerra neste "aquário" (tradução do título) uma jovem, interpretada pela atriz não profissional Katie Jarvis, e extrai seus melhores momentos ao abordar com delicadeza o desconcerto causado por palavras de carinho em alguém que as ouve pela primeira vez aos 15 anos.

A fascinação de ser desejado e a inevitável desconfiança em relação ao ente querido são mostradas com precisão e bom gosto, mas, após transitar com notável perícia durante uma hora e meia pelos caminhos previsíveis da trama, decide dar um giro ao risco que acaba em um excesso pouco realista e conclusões morais difusas.

Mais estável, para o bem e para o mal, foi a criação de Lou Ye em "Spring Fever", que, por outro lado, foi criticado por não acabar de disparar a munição do filme, uma explícita - e, em consequência, corajosa - crônica do impossível périplo sentimental de um jovem homossexual em Nanjing, na China atual.

Ye, que em 2006 foi impedido de filmar por cinco anos pelo Governo chinês após abordar o protesto estudantil da Praça da Paz Celestial em "Summer Palace", mostra com "Spring Fever" que anda longe do arrependimento e, com ajuda de financiamento da França e de Hong Kong, segue sua trajetória.

"Sou diretor de cinema e faço filmes, portanto, continuarei fazendo, como sempre", disse, em entrevista coletiva. "Espero ser o último cineasta vetado na China. Por favor, agora falemos do filme", pediu.

"Spring Fever" pode ser entendido como uma metáfora desta mesma mensagem, pois mostra o desespero de um personagem que só quer ser ele mesmo. No caso, quer amar em paz outro homem e não transformar cada relacionamento em um intrincado melodrama cheio de vidas duplas e efeitos colaterais.

"É um filme sobre sentimentos e amor. Uma avaliação do grau de complexidade das relações entre pessoas", resumiu Ye, que "enverniza" o filme com um equilíbrio que foi julgado por alguns como uma virada para o "insípido" e por outros como uma louvável contenção.

Em qualquer caso, a opinião geral indica que, se a presidente do júri, Isabelle Huppert, cumprir a promessa de se concentrar nas qualidades estritamente cinematográficas para conceder os prêmios, esta edição não revelou obras dignas de entrar no histórico oficial.

Assim, os alvos estão voltados para amanhã, com a exibição de "Thirst", de Park Chan-wook e de "Bright Star", de Jane Campion. EFE msc/an

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