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Cansada de preconceito , travesti do Congresso anuncia ida para Europa

Maria Eduarda Borges trabalha na Câmara dos Deputados há mais de 10 anos, na maior parte como assessora parlamentar. Começou aos 18, como officeboy, passou a gostar de política e se especializou em assuntos legislativos. Comissionada, chegou a assessorar mais de dez deputados ao mesmo tempo, inclusive o seu amigo Clodovil Hernandes, morto em 2009. Hoje, aos 28 anos, trabalha para o deputado federal Celso Russomanno, pré-candidato ao governo de São Paulo pelo PP. Mas foi há quase dois anos que Maria Eduarda passou a chamar atenção dos homens engravatados e despertar curiosidade das mulheres que circulam diariamente pelos corredores da Câmara. Loira de cabelos longos, corpo malhado e seios turbinados, ela se assumiu como travesti, ¿a primeira do Congresso Nacional¿, após voltar de uma Parada Gay de Salvador.

Andréia Sadi, iG Brasília |

Antes, João Paulo, como está registrada, se escondia atrás de ternos e usava boné para disfarçar o aplique que custou uma fortuna.  Agora, desfila de salto, roupas curtas e cara fechada: Sou metida, não falo com ninguém. As pessoas confundem, mexem comigo, mas ninguém tem coragem de falar qualquer coisa porque eu sou séria.

Arquivo pessoal

Maria Eduarda Borges, assessora parlamentar e transexual

Ao iG, contou que está de malas prontas para a Europa, em julho, porque cansou do preconceito na Casa e lamenta:  O Congresso vai perder a sua diva. É a pior coisa este preconceito, agora eu sei o que sofreu a Rogéria, como deve ter sofrido a Roberta Close e o Clodovil. Eu cansei, contou Maria Eduarda, que luta há seis meses na Justiça para adotar o nome também no RG e deixar a história do João Paulo no passado.

Confira abaixo a entrevista concedida:

iG: Como você gosta de ser chamada?

Maria Eduarda: Eu sou travesti. Vamos assumir, de uma vez por todas, o que eu sou. Eu sou travesti.

iG: Você não sofreu preconceito quando se assumiu travesti em um ambiente formal, como é a Câmara dos Deputados?

Maria Eduarda: Olha, não é descarado, não falam na cara, é enrustido, mas existe demais o preconceito. Mas não é de homem, é de mulher e gay. É aquele olhar maldoso, desde que eu passei a me destacar há dois anos, isso aconteceu. Já fui considerada a melhor assessora legislativa da Casa, então você imagina, tem isso também.

iG: Mas as mulheres se incomodam mais?

Maria Eduarda: Porque a mulher me tem hoje como a sua rival, entende? Eu sou o fetiche dos homens, elas querem disputar sendo que eu não quero disputar nada.

iG: Como foi o investimento para você se transformar?

Maria Eduarda: Eu primeiro coloquei este aplique e depois fui comprando as minhas roupas, adoro. Depois, coloquei 450 ml de silicone para ficar deste jeito que você está vendo. Eu paguei, é meu.

iG: E as pessoas não estranharam?

Maria Eduarda: Muito. Até eu, porque veja só, eu demorei para me acostumar com o novo visual.

iG: E os políticos, como você se relaciona com eles?

Maria Eduarda: Fui muito ao plenário buscar projetos e tal e fica aquela olharada em cima de mim. Mas nem imaginam, não dá para diferenciar, eu sou discreta.

iG: E você já saiu com algum político?

Maria Eduarda: Já recebi muita cantada. Uma vez, estava com um vestido branco e fui buscar um projeto no plenário da Câmara. Um político, que não vou dizer o nome e nem adianta você insistir, pediu o meu telefone. Eu dei. Ele ficou me ligando dia sim dia não para gente jantar.

iG: E você?

Maria Eduarda: E aí que eu contei a ele, quando chegou o dia de sair: o senhor sabe que eu sou menino, né?. E aí eu não quis mais sair com ele.

iG: E a sua relação com o Clodovil, como era?

Maria Eduarda: Nossa, eu adorava ele. Fui muito amiga dele, acompanhei quando ele ficou doente e ele me elogiava muito, no seu programa de televisão. Ele me apoiou muito, sinto muito a falta dele.

iG: Você já trabalha aqui há dez anos. Quais sao seus planos aqui dentro?

Maria Eduarda: Eu vou embora, eu cansei, desisti. Vou para a Europa, já estou de viagem marcada.

iG: Mas fazer o quê na Europa?

Maria Eduarda: Vou escrever um livro sobre a sexualidade. O Congresso vai perder a sua diva, mas eu não fico mais aqui. Mas quero agradecer a todos os deputados que me receberam aqui, as deputadas Anne Pontes, Laura Carneiro, Sandra Rosado, ao Celso e especialmente ao Clodovil.

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