Por Giorgio Gosetti, 20 MAI (ANSA) - O novo filme de Spike Lee, Milagre em Santa Anna (Miracle at St. Anna) terá sua pré-estréia mundial nos festivais de Veneza ou Toronto, mas há um trailer de aproximadamente oito minutos sendo exibido em Cannes.

"Atualmente estamos trabalhando na pós-produção e é por isso que não mostramos mais do que esses minutos. Depois iremos decidir a estratégia internacional de divulgação", disse o cineasta.

Lee explicou a relação entre o novo filme e sua própria vida: "Ele se chama 'Miracle at St Anna' e foi um milagre. Talvez eu mesmo seja um diretor milagroso. Após o sucesso comercial de 'O Plano Perfeito' (2006), pensei que fosse mais fácil concretizar os projetos que tenho em mente. No entanto, a biografia de James Brown e a narrativa dos conflitos raciais em Los Angeles ainda estão na gaveta. Quando cheguei na Itália em julho passado para encontrar meus produtores, Roberto Cicutto e Luigi Musini, tinha apenas um milhão de euros na conta. Mas decidimos que se não fizéssemos o filme até outubro ele seria adiado para sempre: em três meses estávamos prontos e tínhamos os parceiros certos. Se isso não é um milagre, é o quê?", questionou o cineasta. 

O diretor norte-americano contou ainda que sempre foi apaixonado por filmes sobre a Segunda Guerra Mundial. "A última vez em que os americanos foram à luta por amor ao próprio país e por um ideal correto".

Lee também disse que gostou do livro de James McBride desde a primeira página, no qual seu último filme é baseado. Também com o nome de "Miracle at St. Anna", o livro conta a história dos soldados da Divisão Búfalo, formada exclusivamente por negros, que combateram a invasão nazista na Toscana.

O diretor gostou do livro "porque de um lado restitui a honra e a verdade histórica aos afro-americanos que formavam a Divisão Búfalo, empenhada na campanha na Itália. Mas de outro conta um verdadeiro milagre da bondade humana quando alguns deles ficam presos atrás das linhas alemãs para salvar um órfão italiano".

"Fiquei chateado quando na Itália começaram polêmicas sobre o fato de o filme não falar sobre a tragédia de Santa Anna di Stazzema. Eu contei uma outra história e tenho muito respeito pelos 'partigiani' e as vítimas da represália nazista", disse o diretor.

Lee foi cauteloso mas também polêmico ao comentar a ausência de soldados negros nos recentes filmes de Clint Eastwood sobre a Segunda Guerra Mundial, "A Conquista da Honra" e "Cartas de Iwo Jima" (ambos de 2006). "Eastwood está aqui em Cannes, vá perguntar a ele que história viu e por quê fez essa escolha. Sobre aquela página da história eu tenho informações diferentes, mas não quero fazer polêmica: respeito Clint Eastwood como um grande diretor e cada um conta o que quer", declarou. 

"Para me preparar para as primeiras cenas de guerra da minha carreira, vi toneladas de filmes sobre a Primeira Guerra Mundial, que é muito diferente da posterior, inclusive no cinema. De resto, se vencemos a guerra é também por mérito do cinema, que fez circular no mundo nossas idéias, nossos hábitos e nossos valores. Os mesmos valores que me fizeram falar sobre os sobreviventes, que pude entrevistar e que foram à Itália porque acreditavam em seu país e nos valores da América", afirmou Lee. 

Produzido pelo próprio Spike Lee em parceria com a produtora italiana On My Own, a RAI Cinema e a Touchstone, "Miracle at st. Anna" é, nas palavras do diretor, "um filme 100% italiano, filmado em locais reais da Toscana, na Cinecittà e depois nos Estados Unidos com uma equipe italiana e ótimos atores, como Pierfrancesco Favino, Valentina Cervi e Luigi Lo Cascio ao lado de John Turturro e um punhado de novos rostos norte-americanos".

"Ficamos atentos à verdade histórica e assim cada um na tela falará a sua língua. É importante dar o sabor da verdade", concluiu o diretor, revelando que está fazendo um documentário sobre o jogador de basquete Michael Jordan. "Seria fantástico jogar basquete com ele na escadaria de Cannes", declarou.

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