SÃO PAULO - ¿Racismo: se você não fala, quem vai falar?¿. A pergunta não poderia ser mais direta. Foi dessa forma que a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo e o portal iG convidaram brasileiros de todos os cantos do País para debater a questão que há mais de um século é deixada à sombra do manto da ¿democracia racial¿.

A campanha 120 anos de abolição convocou durante três meses a população e internautas do Brasil inteiro a escreverem textos sobre o preconceito contra afro-descendentes. Situação que ainda é negada por setores da sociedade e da academia, como demonstra o livro Não somos racistas ¿ Uma reação aos que querem nos transformar numa nação bicolor, do sociólogo e diretor-executivo de jornalismo da Rede Globo, Ali Kamel.

De acordo com um balanço parcial, mais de 8 mil cartas (3.842 das quais enviadas para o site , hospedado no iG) foram recebidas. A estimativa dos organizadores, no entanto, é que a quantidade de textos chegue a 10 mil.

Para Elisa Lucas Rodrigues, presidente do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo e uma das organizadoras da campanha, o principal objetivo da ação é refletir sobre a situação da comunidade negra, mas de baixo para cima. Queríamos saber qual o retrato que a população tem do negro e a partir daí fazer políticas públicas (para essa comunidade), diz.

A campanha

Durante a iniciativa, que se encerrou na quarta-feira 13 de agosto (o site do iG recebe relatos até o final desta segunda-feira), milhares de pessoas puderam se manifestar por meio de cartas depositadas em mil urnas espalhadas pela capital e em 27 cidades do interior e litoral do Estado. A organização também recebeu cartas dos Estados do Rio de Janeiro, Bahia, Minas Gerais e Maranhão, além dos textos enviados pela Internet.

O próximo passo é a análise de todas as correspondências por uma comissão de estudantes e pesquisadores de universidades de São Paulo. Os 120 melhores textos serão publicados em um livro, no mês de novembro, pela secretaria como parte das comemorações do Dia da Consciência Negra (20/11).

O professor da UNESP Dagoberto José Fonseca, um dos responsáveis pela análise das cartas, explica que o balanço da campanha foi extremamente positivo, pois pela primeira vez esse debate foi proposto por um governo.

O governo do Estado não teve medo de ouvir que nesse país há racismo sim. Uma coisa é movimentos sociais e dos direitos humanos dizerem isso, outra é a secretaria assumir esse papel e colocar o dedo na ferida, afirma Fonseca, lembrando que a campanha também recebeu textos de EUA e Portugal.

Chegarmos nessa marca (de 10 mil cartas) é importante para entendermos que há um tumor a ser superado nesse País. Não há democracia racial, critica.

Falta de debate

Para Elisa, o Brasil não só carece de debate sobre a questão dos afro-descendentes, como também de ações práticas. Um dos pontos elogiados por ela, entretanto, é a introdução das cotas raciais em algumas universidades. Há pesquisas que indicam que o aluno negro (cotista) tem melhor desempenho do que o branco, afirma.

Estudos recentes da Unicamp e da UNB confirmam as palavras da pesquisadora, já que de acordo com os números das duas instituições, os alunos afro-descendentes que se utilizaram das cotas não só apresentam melhor desempenho, como também menor taxa de reprovação em relação aos estudantes não cotistas.

O professor Dagoberto Fonseca critica a visão ideológica de acadêmicos como Ali Kamel e lembra que um importante indicador de racismo no Brasil são os relatos não somente de negros, mas de brancos e asiáticos, além das mulheres brancas casadas com afro-descendentes, que vêem a violência contra seus maridos.

A realidade mostra que o diretor da Globo está completamente equivocado, que na verdade (para ele) é uma questão de fundo ideológico. Talvez ele viva num país que não o nosso, ou talvez seja pelo fato de ele não ser um Silva ou um Ferreira.

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