Caminhada é um esporte que reúne todas as idades

Caminhada é um esporte que reúne todas as idades Por Ciça Vallerio São Paulo, 12 (AE) - Luciana Barreiro é uma desbravadora de trilhas. Com uma mochila nas costas, que chega a pesar 20 quilos, costuma embrenhar-se no mato.

Agência Estado |

Às vezes, carrega até um facão, para abrir caminho. E vai sempre acompanhada de um pequeno grupo, geralmente formado por homens. Para chegar a lugares deslumbrantes, já ficou dias sem tomar banho, dormiu em barraca e passou muito frio.

A arquiteta de 37 anos aguenta firme dores, cansaço e todo tipo de privação. Mas, segundo garante, cada gota de suor é válida quando pratica seu esporte preferido: o trekking. "O meu salário é para pagar os equipamentos e viajar", conta. "Caio na estrada quase todo fim de semana, e não deixo escapar nenhum feriado. É comum voltar de viagem na madrugada de segunda-feira, tomar um banho rápido em casa e ir direto para o trabalho."
A paixão por caminhadas também faz parte da vida da professora aposentada, Eliana Brito Nunes Vendramini, de 59 anos. Como é de praxe entre adeptos do trekking, ela começou a fazer programas de um dia, organizados por agências especializadas. Isso foi há mais de 10 anos, numa época em que estava triste com a doença do pai.

Quando se hospedou em um hotel na praia de Juqueí, litoral paulista, viu um folheto sobre uma caminhada curta na Mata Atlântica. "Deixei meu marido com o neto e fui sozinha ver como era", recorda-se. "Na trilha, lembrei da minha infância no interior, dos banhos de rio. Estava numa fase de me questionar, e percebi como passamos a ser o que os outros querem e acabamos abdicando de tanta coisa na vida." Depois do primeiro passeio, Eliana engatou muitos outros.

Nem a cara feia do marido, que prefere um hotel cinco estrelas a andar no mato, a intimidou. A sua jornada começou pelas trilhas brasileiras e estendeu-se para viagens internacionais. Já fez trekking na Patagônia (Argentina), Bolívia, Peru e África, chegando ao Monte Kilimanjaro, o ponto mais alto desse continente. A empolgação com caminhadas a estimulou até a andar de bicicleta na cidade.

Tem gente que não gosta muito da ideia de se privar de conforto para caminhar no mato. Mas quem experimenta esse tipo de aventura raramente volta para casa insatisfeito. Para os adeptos do trekking, o mais gratificante é a sensação de liberdade, proporcionada pelo convívio estreito com a natureza.

O interesse crescente por esse tipo de modalidade fez surgir inúmeras agências especializadas, que passaram a oferecer caminhadas para interessados de vários perfis. Tem trilhas leves para iniciantes, que duram algumas horas, até opções bem radicais, que exigem preparo físico e muita garra para suportar as dificuldades. Existem também passeios que possibilitam a participação da família inteira, incluindo idosos e crianças.

"Tanto é que, hoje, o esporte de aventura não está mais associado àquela ideia de ser uma atividade apenas para musculosos e malucos, que gostam de emoções fortes", avisa Jean-Claude Razel, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta). Ele aponta para outra mudança: agora as mulheres arrastam a família, namorado, marido para esse tipo de turismo.

MAIS ADEPTAS
São elas que acabam optando por uma viagem alternativa, por acreditarem que o ecoturismo - a começar pelo trekking - é mais saudável do que os roteiros tradicionais. "Caminhadas são mais acessíveis do que outras modalidades, como rapel e rafting, pois não exigem uma infinidade de equipamentos, apenas um tênis e uma mochila", observa o presidente da Abeta.

No roteiro Caminho do Sol, a participação feminina já superou a masculina. O trajeto tem 241 quilômetros, leva 11 dias, começa em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo, e vai até Águas de São Pedro, no interior paulista. "Normalmente os grupos que saem para essa empreitada têm mais mulheres", afirma José Palma, o idealizador e organizador desse programa. "Apesar de passarem uma imagem de fragilidade, elas são mais determinadas e resistentes a dificuldades e dores. Homem tende a desistir, mas são elas que os estimulam a continuar, e têm a coragem de abdicar do conforto para chegar até o ponto final."
Uma das muitas que já suaram a camisa na Caminhada do Sol foi a assistente administrativa Marcia Helena Faria Yamazaki, de 52 anos. Em outubro de 2008, ela completou o trajeto calçando sandália papete e meia. Logo no segundo dia de viagem, decidiu despachar por correio a sua bota de trekking, que estava machucando muito seus pés. "O jeito foi me adaptar e seguir em frente", pondera Marcia. "Apesar da dificuldade, já fiz caminhadas piores, como a do Vale do Pati, na Chapada Diamantina (Bahia). Passei frio, peguei chuva, um besouro me atacou... Mas quanto mais desafio, maior o prazer da conquista."
Para Marcia Helena, viagem deve ter aventura, e o trekking tornou-se a solução depois que seu marido foi obrigado a abandonar o mergulho, por causa de um problema no ouvido. Marcia reclama, porém, do preço salgado cobrado pelas agências especializadas. Motivo: são raras as trilhas que não necessitam de guias e de uma estrutura que ofereça segurança, para se chegar a locais de difícil acesso. Uma das exceções é o Caminho do Sol, que é bem sinalizada.

Trekking não é barato, mas muita vezes se gasta mais em um fim de semana na cidade, com shopping, restaurantes e badalação, do que em um passeio no meio do mato. Razão pela qual amantes de caminhadas preferem abdicar desses luxos para curtir uma aventura - e cuidar da alma. "Como precisamos administrar o cansaço e as muitas outras adversidades nas trilhas, nos fortalecemos emocionalmente", acredita Eliana.

A outra praticante do esporte, Luciana Barreiro, conta que busca inspiração nas trilhas para comandar a sua equipe de trabalho. Na opinião da arquiteta, aprender a controlar os ímpetos diante das dificuldades é regra para quem faz trekking. "Mas o maior aprendizado mesmo é curtir a vista do alto de uma montanha, e perceber que a vida não se resume a bens materiais."

Boxe:
Caminhada com segurança
Existem, atualmente, mais de 1,5 mil empresas de turismo de aventura. No entanto, 10% delas estão irregulares, revela levantamento da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta). No site www.aventurasegura.com.br, há uma lista das 185 operadoras cadastradas no Programa Aventura Segura, uma parceria da Abeta com o Ministério do Turismo e o Sebrae Nacional. Faz parte dessa campanha a divulgação dos 10 mandamentos do turista, na hora de escolher uma operadora:
1. Verifique se a empresa está formalizada e tem alvará de funcionamento.

2. Certifique-se de que a operadora oferece seguro que cubra as atividades de aventura na natureza.

3. Veja se a empresa conhece e aplica as normas técnicas brasileiras de segurança para a atividade que oferece.

4. Cheque se os equipamentos estão em boas condições de uso.

5. Pergunte se o guia do passeio é capacitado e está preparado para atender aos primeiros socorros.

6. Confira o estado do estojo de primeiros socorros e carregue na mochila seus remédios específicos.

7. Garanta que a agência ofereça informações necessárias para poder avaliar com exatidão se o roteiro é indicado para seu nível.

8. Lembre-se: sempre que tirar os pés do chã, esteja de capacete, e sempre que entrar na água, esteja de colete.

9. Seja responsável e respeite seus limites.

10. Hidrate-se sempre durante a caminhada.

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