BRASÍLIA (Reuters) - A ameaça de intervenção federal, a proximidade das eleições e a prisão do governador licenciado, José Roberto Arruda, devem levar a Câmara Legislativa do Distrito Federal a manter dentro dos prazos regimentais a apuração das denúncias de corrupção contra integrantes do governo. A tomada de decisões na Casa teve início na quinta-feira, quando parlamentares da Comissão de Constituição e Justiça aprovaram a admissibilidade dos pedidos de impeachment contra o governador licenciado José Roberto Arruda (sem partido) e o governador em exercício, Paulo Octávio (DEM).Os dois são citados em investigação da Polícia Federal (PF) sobre suposto esquema de pagamentos de propina.

"Eu acredito que agora os deputados tenham adquirido juízo e responsabilidade", afirmou o deputado de oposição Chico Leite (PT). "As eleições estão chegando, tem cobrança popular", lembrou.

Após todo um trâmite em uma comissão especial e no plenário, e depois de apresentadas contestações e defesa dos acusados --que deve durar cerca de 50 dias no total--, os processos de impeachment são submetidos a votação nominal na Câmara. A partir desse momento, não há como os denunciados renunciarem. São necessários dois terços dos votos da Casa para que os denunciados percam os postos.

AMEAÇAS E REAÇõES

A crise no Distrito Federal começou em novembro do ano passado, quando a PF deflagrou buscas em gabinetes e residências de deputados, assessores e de Arruda.

Desde então, manobras políticas na Câmara Legislativa, composta na maioria por parlamentares da base do governo, evitaram medidas que afetassem o então governador Arruda e seu vice, Paulo Octávio.

O quadro mudou na última semana, quando o Superior Tribunal de Justiça (STJ) autorizou a prisão preventiva de Arruda, sob acusação de que ele teria obstruído a Justiça ao tentar subornar uma testemunha.

Ao mesmo tempo em que a prisão de Arruda era decretada, o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, encaminhava ao Supremo Tribunal Federal (STF) pedido para que analisasse a necessidade de uma intervenção federal no DF.

"O Poder Judiciário reagiu à falta de ação da Câmara (Legislativa). Esse escândalo começou em novembro. Chegamos em fevereiro sem nenhuma medida na prática", disse outro deputado da oposição, José Antônio Reguffe (PDT).

No STF, o ministro e presidente do tribunal, Gilmar Mendes, aguarda o envio de dados pelo governo do Distrito Federal (GDF) para prosseguir o trâmite do pedido de intervenção.

Nesta sexta-feira, em evento no Mato Grosso do Sul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva procurou se manter neutro em relação à possibilidade de intervenção.

"Não vou discutir sobre hipótese, vai depender da Suprema Corte", afirmou. "Não existe vontade pessoal do presidente da República... e se ele não der palpite, melhor ainda", concluiu.

O STF também deve decidir sobre o habeas corpus impetrado pela defesa de Arruda, preso há oito dias na Superintendência da PF, em Brasília.

(Reportagem de Maria Carolina Marcello)

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