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Caio Tulio Costa fala de ética e jornalismo no Roda Viva

SÃO PAULO - O diretor-presidente do iG, Caio Tulio Costa, foi o convidado do ¿Roda Viva¿, da TV Cultura, desta segunda-feira. O programa abordou temas ligados à ética no jornalismo com base na tese de doutorado de Costa, intitulada ¿Moral provisória ¿ Ética e jornalismo: da gênese às novas mídias¿. Defendida em junho de 2008 na Escola de Comunicações de Artes da Universidade de São Paulo, a tese é inspirada no curso de Ética Jornalística que Costa ministra na Faculdade Cásper Líbero desde 2003.

Redação |

Agência Câmara
Caio Tulio
Diretor-presidente do iG, Caio Tulio

A jornalista e apresentadora Lillian Witte Fibe abriu o programa com uma questão sobre a relação entre o jornalista e a publicidade.  A mediadora destacou que havia uma separação mais clara do jornalismo e do comercial, e jornalista não fazia propaganda. Para ela, atualmente a proximidade entre um e outro é mais comum.

Para Costa, a grande questão é quando jornalismo e publicidade se confundem e o leitor não sabe quando é propaganda ou jornalismo. Isso é compatível desde que o leitor saiba exatamente o que está acontecendo. Quando o leitor não sabe que o jornalista está fazendo publicidade é que é o grande problema. É fundamental que o consumidor saiba onde está a propaganda. Costa lembrou que a propaganda faz parte do negócio jornalístico e que cada vez mais comercial e jornalismo estão próximos. Conforme a tecnologia vai dando a oportunidade de se conhecer novas mídias, pode-se dizer que esta separação fica menor, ressaltou.

Ao responder a questão de um telespectador sobre ética e as maneiras de se conseguir uma notícia com exclusividade, Costa disse que o chamado furo jornalístico faz bem para o profissional e que este tem direito de ser vaidoso, mas é evidente que o furo precisa ser avaliado de acordo com sua importância, a relevância do serviço público que presta.

Moral provisória

Costa afirmou que sua tese não tem a intenção de ser normativa, de ditar regras ou apontar o que é certo ou errado no jornalismo, mas sim de refletir sobre o fazer jornalismo. O título da tese, que, como afirma o entrevistador, usa a filosofia no sentido de dar alguma solidez a reflexões sobre jornalismo, é inspirado em Satre. Como ele disse, há situações tão podres que a gente precisa ter um código moral provisório para algumas delas.

Durante o programa, foram destacados pontos sobre o relativismo que impera atualmente na profissão e os dilemas morais inerentes a ela. O diretor-presidente exemplificou uma dessas questões contando sobre uma enquete que aplica a seus alunos. Ele pergunta sobre o que acham do uso de câmeras escondidas na apuração de uma notícia sobre corrupção. Cerca de 70% dos alunos são favoráveis. Mas quando a pergunta muda para sobre o que acham do uso da mentira na apuração de uma denúncia de corrupção, os alunos ficam divididos.

Ainda como ponto para refletir sobre o relativismo que impera no jornalismo, Costa lembrou que Max Weber já mostrava no século 20 a existência da ética da convicção e da ética da responsabilidade. Neste caso, a primeira poderia ser aplicada a ações de Bin Laden e a segunda, de George Bush.

Internet nas Eleições

Sobre as decisões do TSE em relação a utilização da internet durante as eleições, Costa reforçou que portais não são concessões públicas . É o TSE legislando, e isso é um absurdo. Para Costa, não entender a questão tecnológica da internet como um todo, sobre a qual já há controle possível por meio de normas, propicia a fúria legislatória. Desde 1995, quando comecei a trabalhar com internet, nunca tivemos problemas com os órgãos públicos. Costa lembrou que a web já é o segundo veículo de comunicação de massa do País, atingindo 45 milhões de pessoas. Já é muito mais democrática que jornais e revistas.

Caso Dantas

Uma das perguntas teve como base as informações vazadas no caso da investigação sobre o banqueiro Daniel Dantas. Costa avalia que o problema não é o vazamento. Ou nunca teríamos lido os papéis do Pentágono, (caso Watergate, que levou à renúncia de Nixon). O problema é o uso que o jornalista faz do vazamento. Este País nunca teve tanto acesso à informação e isso é sensacional. O que não é sensacional é o jornalista não saber lidar com tantas informações e interesses envolvidos em cada caso, afirmou.

Caso Isabella Nardoni

Um caso paradigmático, assim Costa definiu a cobertura sobre a morte da menina Isabella. Para ele, a imprensa foi acometida da síndrome da Escola Base, em que a polícia foi ouvida de forma acrítica e inocentes foram condenados. Para ele, no caso de Isabella a população tem uma convicção de culpa e o casal já foi condenado pela mídia. A imprensa ainda erra muito nestes casos, julgando antes que a própria justiça o faça, conclui.

Jornalismo

Para Caio, a imprensa precisa atingir um nível de aceitação maior. Para isso, é necessário trabalhar a informação através de um ponto de visto sério e crítico, sem ser ingênuo.

O programa

Os jornalistas convidados a entrevistar Caio Tulio Costa no Roda Viva foram Carlos Eduardo Lins da Silva, ombudsman do jornal Folha de S.Paulo, Luiz Garcia, colunista do jornal O Globo, Mário Sérgio Cortella, professor-titular do Departamento de Teologia e Ciência da Religião da PUC-SP, e Lia Rangel, do jornalismo da TV Cultura/Web. 

Caio Tulio Costa é jornalista, professor e diretor presidente do iG. Durante sua passagem pelo jornal "Folha de S.Paulo", foi o primeiro ombudsman da imprensa brasileira, experiência que relatou no livro "Ombudsman - O Relógio de Pascal" (lançado pela editora Siciliano em 1991 e reeditado pela Geração Editorial em 2006). Também é autor dos livros "O que é Anarquismo?" (Brasiliense, 1981) e "Cale-se" (A Girafa, 2003).

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