Cabelos ao vento com saúde

Cabelos ao vento com saúde Por Fabiana Caso São Paulo, 29 (AE) - Durante uma velejada, a atleta Adriana Kostiw avistou uns 40 golfinhos, empolgados, apostando corrida com o barco que ela pilotava. A cena ilustra a magia experimentada pelos velejadores.

Agência Estado |

Mas nem tudo é deleite: os praticantes deste esporte devem conhecer bem o funcionamento de seu barco e estar atentos ao vento e mar, a ponto de saberem o que vai acontecer em seguida, para planejarem os movimentos.

Apesar dos bons resultados na última Olimpíada, no ano passado em Pequim, na China, a presença feminina ainda é tímida no circuito de vela profissional. A carioca Nina Castro, que presidia o Comitê Feminino de Vela - departamento que existiu durante o período de 2000 a 2006 na Confederação Brasileira de Vela e Motor -, lembra das piadinhas. "É um ambiente muito masculino. Costumava ouvir que deveria levar as atletas de volta para o tanque, e respondia que eles ainda iriam vê-las no pódio", conta Nina, que ficou felicíssima com a primeira medalha olímpica para a vela feminina, conquistada pela dupla Fernanda Oliveira e Isabel Swan - bronze na classe 470 Medal Race em Pequim.

Na opinião de Nina, é preciso haver um órgão que estimule a participação feminina. "As meninas têm capacidade, são mais disciplinadas e determinadas. O que falta é chance", acredita. Geralmente, são as atletas que pagam seus treinadores e batalham por patrocínio. Fernanda e Isabel, por exemplo, persistiram nessa busca. "Treinamos três anos e meio, e muita gente falou para desistirmos, pois era loucura", conta a gaúcha Fernanda Oliveira, 28 anos, de volta da recente lua de mel e em período de descanso.

Fernanda começou a velejar aos 11 anos, em um clube de Porto Alegre. Fez um curso de férias e não parou mais. "Fui uma das poucas meninas que continuou", lembra. "A maioria acaba parando na adolescência por causa de vestibular, faculdade, namorado." Uma das grandes alegrias da prática, opina, é o contato com a natureza. "É incrível saber que o vento é seu combustível. E é preciso decifrá-lo todo o tempo", comenta. "Também é necessário entender as nuvens, o mar. E estar ciente das regras de cada campeonato, ler antes e estudar. Caso contrário, perde-se muitos pontos."

Para garantir o bom condicionamento físico, faz musculação e tem um personal trainer. "É um esporte que não é harmônico, algumas partes do corpo são mais trabalhadas que outras. Por isso, há necessidade de fortalecimento", fala Fernanda, que já teve que parar por causa de uma lesão na coluna. Participou das três últimas olimpíadas, cada uma com uma companheira de dupla diferente.

Curiosamente, considera como maior desafio ter de passar muito tempo fora de casa. E, claro, a questão financeira. "Considerando as dificuldades, ainda tenho que pensar se este é mesmo o caminho certo."

A paulistana Adriana Kostiw (aquela que se deparou com os 40 golfinhos!), de 34 anos, também conquistou a medalha de bronze na categoria Laser Radial dos Jogos Pan-Americanos de 2007 - e comanda seu barco sozinha. Já na infância, aos 9 anos, aprendeu a velejar com o pai. A localização era privilegiada: moravam próximos à Represa de Guarapiranga, na zona sul de São Paulo.

Apesar da precocidade e da participação em campeonatos, estudou moda e, até então, trabalhava com fotografia. Só a partir de 2002, passou a se dedicar exclusivamente à vela. No momento, divide-se entre São Paulo, capital, e os treinos na Ilhabela. Além de velejar, também pedala e corre para fortalecer a coluna, joelhos, ombros e a região abdominal.

Para ela, as regatas são como um "jogo de xadrez": uma combinação de fatores. "É um esporte que mede um conjunto de coisas, inclusive a cabeça. E a mulher é melhor nisso do que o homem." Para se proteger do sol constante, Adriana abusa do protetor solar. "É um dilema: fico com a pele manchada, tenho que fazer peelings. Mas daí não posso tomar sol e velejar", lamenta. Tudo vale a pena, em nome de seu esporte favorito.

LAZER
Os prazeres da vela não estão restritos às atletas profissionais. Mesmo numa cidade de concreto como São Paulo, é possível aprender a velejar: há diversas escolas na beira da represa Guarapiranga, como a tradicional Dick Sail. O curso básico consiste em três aulas de quatro horas, totalmente práticas. Aprende-se a montagem do barco, coordenação do leme e vela, direção do vento e nomenclatura náutica. E as manobras básicas: bordo, quando se muda o barco de lado contra o vento; e jibe, quando se navega a favor do vento.

"Um dos maiores benefícios é estar imerso na natureza. Cada dia é diferente. Isso desenvolve a sensibilidade: a pessoa já percebe se o vento vai mudar", comenta o diretor da escola, Richard Paul Andersen. Conta que, apesar de ser um ótimo esporte para as mulheres, é raro procurarem o curso sozinhas: a maioria vai com os maridos ou namorados. Richard participa também do projeto Pranáutica - Associação de Ensino e Práticas Náuticas, na represa Guarapiranga, onde oferece aulas gratuitas de vela para crianças de 10 a 16 anos. Nessas turmas mirins, há até mais meninas do que meninos.

A prática exige tamanha concentração que o atleta acaba desligando-se naturalmente dos problemas. "É uma atividade relaxante: incentivo as mulheres a praticarem", fala Paulo Pera Rodrigues, diretor da escola Beira-Mar, onde 35% dos alunos são do sexo feminino. "Para velejar, é preciso viver o momento, prestando atenção à natureza e dirigindo o leme."

Além de ser um bom remédio contra o estresse, a prática trabalha bastante a região abdominal e desenvolve a resistência. Montar o barco e entender sobre o seu funcionamento também costumam estimular o senso de organização. Um consolo para os amadores: a vela praticada como puro lazer não exige tanto condicionamento físico. "Basta ter disposição e vontade de aprender", garante Paulo.

A atividade só não é recomendada para quem tem problemas sérios na coluna, como hérnia de disco. "Também não costumo aceitar pessoas que não sabem nadar." Paulo assegura que, nesse mar, há peixes: "é um ramo cheio de homens solteiros. Por isso, costuma ser um ponto de encontro para pessoas que têm um estilo de vida parecido, ligado às atividades físicas."

A atriz e diretora da agência de modelos infantis Manuela Assunção está empolgada com as aulas. Paulistana, de 48 anos, já tinha velejado a passeio, mas nunca havia comandado um barco. Adepta da natação e de outros esportes, decidiu aprender a velejar quando surgiu a oportunidade de comprar um barco. "É uma liberdade! Não tem idade para aprender", vibra. "E não é preciso força física, basta ter jeito para fazer os movimentos."

Na primeira aula, já aprendeu técnicas para decifrar o vento. "É divertido: mergulha-se o dedo na água, e o lugar mais gelado indica a direção." Está gostando de aprender na represa, porque é mais calma que o mar. Mas, de lá, sai direto para o Guarujá, no litoral sul de São Paulo.

A bancária paulistana Carolina Vasconcellos, de 36 anos, ficou com um pouco de medo de o barco virar e teve alguma dificuldade para controlar o leme no começo. "Mas logo se aprende o jeito", conta. "É muito bom, você desliga. E passa um dia diferente, na natureza, ao invés de ir ao shopping." Fez o curso básico há seis meses e não praticou mais, por falta de tempo e de companhia. Agora, está tentando convencer as amigas a aprenderem também. "Assim poderemos alugar um barco juntas", planeja.

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