Burle Marx, que fez da paisagem tropical uma arte, ganha exposição no Rio de Janeiro

RIO DE JANEIRO ¿ O Brasil abunda em selvas, florestas e todo o tipo de plantas exóticas, flores e árvores. Mas até que o arquiteto de paisagens brasileiro Roberto Burle Marx viesse para domar e moldar a exuberante flora do país, seus compatriotas desdenharam em grande parte das riquezas naturais que, frequentemente ao pé da letra, floresciam em seus próprios quintais.

New York Times |

Burle Marx criou a paisagem tropical que conhecemos hoje, mas ao fazê-lo, também conseguiu algo ainda maior, afirma Lauro Cavalcanti, o curador de uma mostra de arte dedicada ao trabalho de Burle Marx que acontece até março no museu do Paço Imperial. Ao organizar plantas nativas de acordo com os princípios estéticos da vanguarda artística, especialmente o cubismo e o abstracionismo, ele criou uma gramática nova e moderna para o design de paisagem internacional.

Visto de cima, calçadão de Copacabana parece uma tela imensa / Lalo de Almeida

Burle Marx nasceu em 1909 e, para marcar o centenário, o museu teve de mostrar a capacidade máxima de sua criatividade. Além de modelos de escala e desenhos dos projetos de design de paisagens mais celebrados, a exibição inclui quase 100 de suas pinturas, bem como desenhos, esculturas, tapeçarias, joias e roupas e modelos que ele desenvolveu para produções teatrais. A meta é mostrar como o trabalho dele em um campo se mistura com seu trabalho em outros.

Ele era um verdadeiro gênio, diz William Howard Adams, o curador-chefe de uma mostra de Burle Marx apresentada no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) em 1991. Mas o que realmente se destaca é que ele tratava o design de paisagens como um parceiro igual da arquitetura, não como pano de fundo ou decoração, e o elevava a esse nível.

Por sua vez, Burle Marx sempre se considerava antes de mais nada um pintor, o que explica a abundância de telas na mostra. O design de paisagens, escreveu uma vez, era meramente o método que achei para organizar e compor meus desenhos e pinturas, usando menos materiais convencionais.

Foi quando estava estudando pintura na Alemanha durante a República de Weimar, como contaria mais tarde, que Burle Marx percebeu que a vegetação que os brasileiros rejeitaram como mirrada e desprezada, preferindo importar pinheiros para os jardins, era realmente extraordinária. Ao visitar o Jardim Botânico em Berlim, ficou maravilhado ao encontrar plantas brasileiras na coleção e rapidamente percebeu o potencial artístico desconhecido em suas formas, tamanhos e cores variados.

A maneira que ele sintetizava arte e horticultura em design de três dimensões é realmente excepcional, garante Mirka Benes, historiador de paisagens que da Universidade do Texas, em Austin. Ele tinha mesmo um olho de pintor, que se podia sentir em seu soberbo senso de cor e forma, e compreendia dogmas do modernismo e dadaísmo, tendo conhecido claramente e estudado o trabalho de pessoas como Hans Arp.

Jardim elevado com projeto de Burle Marx, na capital carioca / Lalo de Almeida

Como Arp, Burle Marx era descendente de alemães por parte de pai e franceses por parte de mãe. Ele nasceu em São Paulo, mas se mudou jovem para o Rio de Janeiro, onde um de seus vizinhos era o arquiteto modernista Lucio Costa, o futuro designer de Brasília, que deu a Burle Marx suas primeiras comissões.

Apesar de Burle Marx ter tido uma mão no design de algumas partes de Brasília, incluindo os jardins suspensos, ele é especialmente conhecido entre os brasileiros por seus muitos projetos ambiciosos no Rio. A cara dessa cidade apresenta a impressão dele, diz Cavalcanti.

O Aterro do Flamengo, maior parque do Rio, construído em uma estrutura reformada a sudoeste da cidade, é um dos primeiros projetos com a assinatura de Burle Marx. Mas nada supera as calçadas de Copacabana, com mosaicos abstratos em pedra colorida que se estendem sem quebrar por toda a praia. Dos andares mais altos dos prédios que ladeiam a Avenida Atlântica, Burle Marx parece ter pintado uma única tela de cinco quilômetros de comprimento.

Apesar de adorar criar jardins para os amigos, o que lhe deu maior satisfação foi trabalhar com espaços públicos, afirmou Haruyoshi Ono, um arquiteto brasileiro de paisagens que começou a trabalhar com ele em 1965 e dirige hoje uma empresa de paisagismo que Burle Marx fundou nos anos 1950. Ele costumava dizer que quanto maior e mais aberto um projeto, mais ele gostava, porque podia ser apreciado por todas as classes sociais.

O esforço mais elaborado e que consumiu maior tempo de Burle Marx, entretanto, pode ter sido um imóvel abandonado que ele comprou na periferia da cidade em 1948 e transformou em casa, estúdio e complexo botânico. Agora um marco nacional e atração turística com mais de 3,5 mil espécies de planta, o local funcionou como oficina de trabalho, laboratório e escritório até a sua morte em 1994.

No ápice da carreira, Burle Marx era altamente estimado entre seus pares nos Estados Unidos. Em 1965, o Instituto Americano de Arquitetos o premiou com um grande prêmio de artes, dizendo que ele era o criador real do jardim moderno.

Obra de Burle Marx em exposição do Museu do Paço Imperial / Lalo de Almeida

Mas a não ser que viajassem para os trópicos, especialistas norte-americanos tinham pouca oportunidade de conferir diretamente sua obra. Apesar de ter criado alguns jardins em climas temperados, em especial os prédios da ONU na França e Áustria, certamente não pode ter um jardim de Burle Marx em Wisconsin ou Vancouver, explica Benes, a menos que traduzam as ideias para sistemas de plantas locais, o que parece fácil no papel, mas não é.

Nos Estados Unidos, o primeiro projeto conhecido de Burle Marx foi a casa Burton Tremaine, em Santa Barbara, Califórnia, entregue em 1948. Também criou jardins para o Hilton Hotel em San Juan, Porto Rico, e os quartéis da Organização dos Estados Americanos em Washington, e foi contratado para reformar o Biscayne Boulevard, em Miami.

Na última década, emergiu como uma espécie de herói para uma nova geração de arquitetos paisagistas americanos, conta Karen Van Lengen, reitora da Escola de Arquitetura da Universidade da Virginia. Ele é admirado não só por suas habilidades técnicas formidáveis como artista, mas também por seu foco no lado científico do paisagismo e a atenção que dava para comunidade de plantas e a relação delas com o ambiente.

Burle Marx era quase tanto botânico quanto arquiteto de paisagens, embora amplamente autodidata. Mais de 50 espécies de plantas obtiveram o nome dele ¿foi um dos maiores especialistas do mundo em bromélias, a família de planta à qual o abacaxi pertence. Mesmo com idade avançada, viajava à Amazônia e sudeste asiático para buscar plantas incomuns e atraentes que podia cultivar em seu jardim de casa e então usar em novos projetos.

Burle Marx era profético em sua reverência por plantas e administração de todo o terreno, por sua habilidade de ver o jardim tanto como experimento estético e como parte da ecologia, afirma Van Lengen. Esse é o desafio para os paisagistas de hoje, juntar essas energias. Burle Marx já estava fazendo isso antes de a maioria das pessoas sequer pensar a respeito, então ele realmente se destaca sozinho.

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