Brutal assassinato de bebê na Inglaterra volta à tona em reconstituição literária

Por Marylin Stasio ¿ O fato e a ficção não causam tanta obscuridade, mas derramam muito sangue entre si no livro The Suspicions of Mr. Whicher¿ (ainda sem tradução para o português), a extensa análise e reconstrução fatídica feita por Kate Summerscale sobre o assassinato de Road Hill, crime infame que balançou a Inglaterra no verão de 1860. Na madrugada do dia 29 de junho, uma pessoa entrou no quarto das crianças da Road Hill House, mansão de Samuel e Mary Kent situada no vilarejo inglês de Road, e seqüestrou o filho de três anos do casal, chamado Saville. Horas depois, quando o alarme foi dado pela babá, o corpo da criança foi encontrado com a garganta dilacerada, jogado na latrina dos criados na área externa da casa. ¿Talvez este tenha sido o crime mais perturbador da época¿, disse Summerscale.

New York Times |

O inspetor policial Jonathan Whicher, um dos oito membros da equipe especial de detetives da Scotland Yard, reverenciado por seus colegas como o príncipe dos detetives, foi deslocado de Londres para a região industrial no sul da Inglaterra para levar um pouco de profissionalismo à investigação local. Mas o crime não se tratava de um caso policial óbvio ¿ não havia qualquer motivo aparente para o assassinado de uma criança, não havia testemunhas e as pistas críticas se perderam ou estavam comprometidas ¿ e nisso reside seu verdadeiro significado. Sem uma solução fácil e rápida do mistério, Whicher foi forçado a escavar a intimidade dos moradores da mansão, trazendo segredos à tona e despertando especulações que, na visão de Summerscale, seriam profundamente ameaçadoras para as noções que a sociedade inglesa guardava de si mesma. O caso se tornou um tipo de mito, disse ela, uma fábula sinistra sobre a família vitoriana e os perigos de uma revelação.

Uma vez alojado na imaginação coletiva, o assassinato não somente atraiu comentários da imprensa sensacionalista e dos ultrajados guardiões da moral e segurança pública, mas também dos literatos da época. Dickens propôs sua própria teoria sobre o crime para seu amigo Wilkie Collins, e ambos o utilizaram, de maneira proposital, em romances mais tarde publicados (para os verdadeiros fanáticos deste gênero literário que engloba a história e o mistério, ler "The Mystery of Edwin Drood" ou "The Moonstone" logo depois de "The Suspicions of Mr. Whicher" é parecido com a experiência de ter uma manifestação divina). Summerscale, que trabalhou como editora literária do periódico Daily Telegraph, vai tão longe a ponto de dizer que a investigação da vida real determinou o curso da ficção policial. Dois anos após o assassinato, sua afirmação foi comprovada pela romancista Elizabeth Braddon, cuja obra extremamente popular "Lady Audley's Secret desentranhou as particularidades do crime, oferecendo um esboço para o gênero literário que veio a ser conhecido como sensation novel.

Através de seu próprio palpite literário, Summerscale usa sabiamente uma voz narrativa vigorosa e uma cadência cheia de suspense, dentre outros artifícios deste gênero literário, para fazer com que seu material factual seja lido com a urgência de um trabalho de ficção. O que ela construiu, especificamente, foi uma típica obra de mistério passada em uma casa de campo, mais brutal do que aconchegante, mas apresentando o mesmo tipo de enigma intelectual que seus modelos de ficção e adornada, como tais livros costumavam ser, com mapas, diagramas, entalhes, retratos falados e outras ilustrações maravilhosamente antiquadas (mesmo as notas literárias podem ser vistas como pistas escondidas, levando o leitor a descobrir tesouros como as obras "Victorian Studies in Scarlet", de Richard D. Altick, e "Black Swine in the Sewers of Hampstead", de Thomas Boyle).

E o que é ainda mais importante é que Summerscale consegue realizar o que autores modernos do gênero não se preocupam mais em fazer, ou seja, usar a investigação de um assassinato como um portal para um mundo mais amplo. Quando colocado em um contexto histórico, cada aspecto do crime nos conta algo sobre a sociedade da era vitoriana - desde atitudes predominantemente femininas (propensas à insanidade), infantis (cheias de impulsos e caprichos brutais) e dos criados (forasteiros que podem ser espiões ou sedutores), como os constructos intelectuais baseados na moral que codificaram tais visões do comportamento humano.

Mas, o espírito do iluminismo científico também florescia naquele período industrializado. As pessoas já se encontravam apaixonadas por detetives policiais (um substituto secular aos padres e profetas) e com uma curiosidade mórbida sobre os avanços na psicologia criminal e procedimentos forenses. Para uma nação de detetives de sofá, a investigação da Scotland Yard, extremamente pública e prolongada, era como um manual educativo das novas ciências forenses. Como Summerscale definiu, O crime de Road Hill transformou todo mundo em detetive.

Outras boas reflexões são dedicadas ao significado do fracasso do inspetor Whicher ao verificar suas fortes suspeitas em relação à identidade do criminoso e a levar tal pessoa a julgamento (seriam necessários cinco anos e uma confissão completa para condenar o assassino e vindicar Whicher, cuja grande reputação estava em ruínas). Como qualquer romancista, Summerscale segue seus instintos de contadora de estórias ao fazer do detetive o herói de seu livro. Apesar de seu esforço em tentar humanizar o personagem inconsistente do detetive ser, na melhor das hipóteses, limitado, ela faz muito melhor ao ilustrar como ele foi ficcionalmente transformado, tanto nos mistérios de sua época como em permutações subseqüentes do gênero.

Mais dramático do que o fracasso pessoal sofrido por Whicher foi a decepção em relação à Scotland Yard e a seus métodos. À medida que a investigação policial se arrastava, e cada vez mais segredos da casa dos Kent eram revelados, mesmo o mais ávido voyeur podia ver que a descoberta policial mantinha perigos escondidos. A mania que Wilkie Collins chamou de febre de detetive de repente se transformou em desgosto em relação ao camarada da classe trabalhadora que tinha se enfiado em questões da classe média e no medo que tais desordeiros pudessem um dia romper a inviolabilidade da casa de alguém e fazer uma bagunça nos tapetes da sala de estar, como descreveu W.H. Auden em seu ensaio clássico The Guilty Vicarage.

Tanto na vida real como no romance policial, tais temores não são infundados, como destacou Summerscale, o caso clássico do assassinato da casa de campo é uma violação à decência, uma exposição agressiva de desejos e necessidades desprezíveis. É por isso que a surpreendente reviravolta final da autora justifica seu herói decadente e promove um ataque agressivo à moral hipócrita daquela época e dos dias de hoje.

(Marilyn Stasio escreve a coluna intitulada Crime do caderno de resenhas literárias do jornal The New York Times)

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