A máxima popular de que brincar é o melhor remédio acaba de ser comprovada cientificamente. A análise de 330 crianças em tratamento em um hospital público, acompanhadas durante um ano, mostrou que a mistura de bonecas, jogos e carrinhos aos medicamentos convencionais deixou os pacientes infantis menos estressados, dormindo mais tempo por noite, e ainda reduziu pela metade o comportamento agressivo.

A influência das brincadeiras na recuperação das crianças foi investigada por Clarisse Potasz, chefe de reabilitação do Hospital Estadual Candido Fontoura, na zona leste de São Paulo, em casos complexos, onde o estudo foi feito. Meninos e meninas de até 12 anos foram estudados de duas formas: um grupo brincou, livremente, duas vezes por dia, e outro não usou as técnicas da "brinquedoterapia".

"Na primeira etapa, avaliamos, por meio da coleta do sangue, os níveis de cortisol encontrados, o hormônio do estresse. Identificamos diferenças médias de 50% entre o grupo que brincou e o que não", conta Clarisse. A segunda constatação foi de que as crianças que brincavam dormiam até meia hora a mais por noite. "O sono noturno tem uma função fundamental para a cura. É quando as proteínas dos neurônios são restauradas." Na última etapa teve 110 crianças com distúrbios respiratórios do sono. A turma que brincou apresentou até duas vezes menos distúrbios de comportamentos e crises.

No corredor do hospital, há duas salas lado a lado. Uma das injeções e outra dos brinquedos. Wilson, Kayllane e Jackson Santos, todos com 3 anos, não conhecem os resultados da pesquisa, mas deixam claro qual tratamento preferem. Wilson, internado havia três dias por pneumonia, só parou de chorar quando passou pela sala da injeção e, aliviado, atestou que o rumo era a brinquedoteca.

Legislação

Por lei, todos os hospitais que atendem crianças são obrigados a ter um espaço para brincadeiras. Mas fora das paredes hospitalares, a prática tem sido negligenciada. Pesquisa da Unilever com 1.024 famílias concluiu que 53% dos pais concordam que as crianças brincam menos do que deveriam. Apesar disso, 26% dos responsáveis priorizam a preparação para o mercado de trabalho, enquanto só 19% deles consideram prioridade deixar as crianças brincarem mais. As agendas de "executivos mirins" - escola, inglês, natação - deixam pouco espaço para o "santo remédio".

Fernanda Aranda

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