SÃO PAULO - Tradicionalmente comemorado no dia 11 agosto, o Dia do Pindura, em que alunos de Direito comem e bebem e, no final, avisam que não vão pagar e pedem para ¿pendurar¿ a conta foi antecipado por muitos universitários este ano em São Paulo. O motivo: a tradição diz que restaurantes que já foram ¿pendurados¿ não podem sofrer um novo calote. No entanto, a brincadeira nem sempre é bem aceita por todos os estabelecimentos. Somente na última semana, o estudante do 3º ano de direto da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Centro Acadêmico XI de Agosto, Raphael Lavez, foi parar na delegacia duas vezes.

Na terça-feira, dia 4, foi com um grupo de mais sete pessoas ao restaurante Outback, no bairro de Moema, zona sul paulista. Depois da refeição, que totalizou R$ 350, discursou e cantou a tradicional trova: "Garçom, tira a conta da mesa / E ponha um sorriso no rosto / Seria muita avareza / Cobrar no 11 de agosto".

"Garçom, tira a conta da mesa / E ponha um sorriso no rosto / Seria muita avareza / Cobrar no 11 de agosto".

O gerente não gostou e foram todos parar no 27º Distrito Policial da capital, onde foi feito um Termo Circunstanciado. Fomos colocados em uma cela com quatro suspeitos de tráfico de drogas e até latrocínio, afirma ele, que diz ter ficado preso da 1h até por volta das 4h. Os estudantes só foram liberados às 7h depois que o pai de um deles, que é advogado, chegou. Ainda assim, os jovens deixaram a delegacia sem pagar a conta.

No dia seguinte, Lavez conta que foi realizar outro pindura no Bar da Praça, na Vila Madalena e, dessa vez, acabou no 4º Distrito Policial. Na delegacia, porém, negociaram com o dono do estabelecimento e pagaram 40% da conta. Já estávamos cansados e, como era pouca a diferença, pagamos, diz.

"No restaurante Sky do Hotel Unique demos nosso maior 'pindura'. A conta ficou em R$ 1.100"

Acostumado a dar pinduras desde o primeiro ano do curso, Lavez comemora que, por completar dois anos, sua dívida com uns dos restaurantes prescreveu. No restaurante Sky do Hotel Unique demos nosso maior 'pindura'. A conta ficou em R$ 1.100. A gente foi para delegacia, mas logo liberado, lembra.

Procurado, o Outback não quis comentar a confusão com os jovens. Um dos funcionários da casa, em Moema, afirmou que o local aceita pinduras mediante agendamento e, que para esta terça-feira, já estão previstos quatro grupos de seis pessoas para jantar de graça. Ou quase, já que a tradição diz que devem ser pagos a taxa de serviço de 10% e as bebidas.

Ninguém do Bar da Praça foi localizado para comentar o caso.

Outro que foi parar na delegacia por causa da brincadeira foi André Pardini, de 23 anos, do 4º ano, após jantar no mexicano El Kabong. Na delegacia acabamos pagando a conta, afirma.

Junior Pinto, do El Kabong, diz que o restaurante já tem um grupo de estudantes que janta na casa há vários anos e que eles são a única exceção.

História

No dia 11 de agosto comemora-se a instituição, por um ato de Dom Pedro I, de 1827, dos primeiros cursos de Direito do Brasil, no Largo São Francisco. Além disso, no mesmo dia, 76 anos depois, foi inaugurado o centro acadêmico da USP.

Por isso, estudantes argumentam que a realização do pindura por alunos de outras instituições vem matando a tradição. É a comemoração do aniversário de nossa faculdade, reitera Lavez.

Segundo ele, há três tipos de "pindura". Um deles é o "selvagem", em que os alunos comem e saem correndo após deixar o ofício da universidade na mesa. È o mais ousado e menos aconselhável, brinca. Há também o pindura diplomático, quando o grupo agenda com o restaurante a comemoração, e o tradicional, em que os estudantes comem e só depois avisam.

Se formos em bar um simples, sabemos que dez pessoas darão prejuízo. A intenção não é prejudicar ninguém"

Entre as regras, está deixar um ofício da faculdade com o restaurante para que prove que já sofreu a pindura e fique livre de outras. Este ano, o grêmio da USP emitiu mil ofícios e, até a tarde desta terça-feira, cerca de 600 já haviam sido retirados.

Em razão do alto número de alunos, os jovens explicam que começam a brincadeira uma semana antes para evitar caos. É uma semana de comemoração do aniversário. No dia 11 muitos restaurantes já estão preparados, explica André Pardini.

Segundo ele, a prioridade é "pindurar" sempre em grandes redes. Se formos em bar um simples, sabemos que dez pessoas darão prejuízo. A intenção não é prejudicar ninguém, justifica.

Cartaz na parede

Para se protegerem, diversos restaurantes já deixam colados cartazes, logo na entrada, explicando que não aceitam a "pindura". É o caso da cantina italiana Capuano, no Bixiga, que sofreu um calote de 15 pessoas em 2001 e hoje não admite a brincadeira. Prefiro dar comida para quem precisa do que para estudante, afirma a proprietária Bete Luise.

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