Um universo mítico de marcado erotismo e milhares de esculturas compõem o estúdio-museu construído pelo escultor, pintor e ceramista brasileiro Francisco Brennand durante as últimas quatro décadas no Recife.

"Este não é um cetro, é uma bengala que preciso para andar", apresenta-se com simpatia Francisco Brennand. Acomodado em uma poltrona no centro de seu templo-museu, parece mais um rei, um Netuno dos mares, com sua barba branca, ávidos olhos risonhos e um sorriso esplêndido.

Brennand, de 80 anos, dedicou quase a metade de sua vida construindo este imenso estúdio de esculturas em cerâmica que ele chama sua "Oficina", onde continua trabalhando ativamente e que surgiu das ruínas da velha olaria que pertenceu a seu pai.

Uma frase do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein gravada em um dos seus jardins dá a idéia da magnitude: "a arquitetura imortaliza e glorifica, por isso não pode haver arquitetura na qual não haja nada para glorificar".

O universo mítico das esculturas que povoam os galpões e os jardins está repleto de figuras eróticas e falos, alegorias religiosas, formas totêmicas quase aborígines e bestas surgindo à vida a partir de extraordinários ovos.

"Minha preocupação é a reprodução: a vida é eterna porque reproduz, e não pode haver reprodução sem sexualidade", explica Brennand.

"Aqui existe uma sexualidade sem pudores, que tem ao mesmo tempo algo de primitivo e ao mesmo tempo cruel e inevitável", afirmou o curador Olivio Tavares de Araújo.

Brennand se lançou no mundo da cerâmica em uma viagem à Europa. O artista chegou a Paris em 1949, interessado por pintura e com "sérios preconceitos contra a cerâmica", material que seu pai usava para fazer azulejos e telhas.

Quando se deparou com os trabalhos de Pablo Picasso, de Joan Mirò, de Paul Gauguin e do arquiteto de Barcelona Antoni Gaudí, mudou de opinião. "Me senti encantado e humilhado, porque percebi que perdi os melhores anos da minha vida para fazer cerâmica".

Em 1971 decidiu instalar sua oficina na olaria em ruínas fundada em 1917 por seu pai. "Vi o espaço como um território livre" onde poderia desenvolver sua arte, explica.

As ruínas continuam ali, mas sobre elas surgiu um templo, e não destruir essas ruínas significa preservar sua infância que floresceu feliz nesse espaço.

As paredes de seus imensos galpões foram revestidas com um azulejo "da cor do tempo". São todos marrons e dourados, com uma tonalidade que muda de acordo com a luz do dia, proporcionando um efeito visual que "somente o tempo e o fogo conseguem emitir", conta apaixonado.

Mais de duas mil esculturas ocupam o lugar. "Tive que criá-las para preencher esses espaços imensos, não tinha como encher o galpão de murais", brinca Brennand.

Seu interesse se voltou para a forma e a matéria. A coloração parece muitas vezes uma insinuação, "existe e foi devorada pelo magenta" dos fornos, explica o ceramista - um caso curioso para o artista que começou a carreira pintando.

"A cerâmica me fez desconfiar das cores", revela.

Brennand passou os primeiros anos trabalhando sozinho. Deixou as finanças nas mãos de seu genro economista e o projeto se tornou viável produzindo azulejos semi-artesanais nos mesmos fornos nos quais o artista preparava suas maravilhosas esculturas.

Hoje em dia, aproximadamente quatro mil pessoas o visitam por mês e 100 operários trabalham no local, muitos são artesãos que produzem decorações baseadas nos trabalhos de Brennand.

Suas esculturas atualmente decoram espaços importantes no Brasil, onde é considerado um grande escultor e ceramista, e já percorreram cidades da Europa e dos Estados Unidos. Neste sábado inaugura exposição em São Paulo (na Caixa Cultural) e no segundo semestre inaugura outra mostra itinerante nas grandes capitais do país.

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