Brasileiros desvendam mecanismo de infecção por uma bactéria

O mecanismo de infecção causada pela bactéria Escherichia coli, encontrada no corpo humano, foi desvendado por médicos brasileiros ligados ao Hospital das Clínicas (HC), em São Paulo. Utilizando camundongos geneticamente modificados, os pesquisadores comprovaram que os animais conseguiram sobreviver mais à sepse, infecção generalizada, causada por essa bactéria.

Agência Estado |

O estudo foi publicado recentemente na revista Nature Medicine . A Escherichia coli consegue "enganar" o organismo ligando-se diretamente às células de defesa do corpo humano, impedindo que os anticorpos a capturem. Assim, a bactéria consegue se reproduzir, o que causa a infecção generalizada. A Escherichia coli é uma das bactérias presentes no intestino. Em contato com a corrente sanguínea, porém, pode causar problemas.

O médico Fabiano Pinheiro da Silva, autor o trabalho, transformou sua pesquisa em trabalho de doutorado, apresentado na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade de Paris, na França. Segundo ele, as infecções por essa bactéria são extremamente freqüentes e representam um problema de saúde.

Quando o organismo detecta um antígeno (vírus ou bactéria, por exemplo) os anticorpos presentes no sangue e fluidos corporais capturam o invasor e se ligam nas células de defesa para ativá-las para o combate e expulsão do corpo estranho. A chave para esse processo é uma proteína presente na superfície das células de defesa, que faz a ligação com os anticorpos, por isso chamada de receptora. Os animais usados na pesquisa não produzem os receptores de Imunoglobulina G (IgG), do tipo 3, também chamados de receptores de anticorpos CD16 . A imunoglobulina é o anticorpo responsável pela captura da Escherichia coli.

Como os camundongos geneticamente modificados não produzem esse receptor, era de se esperar que não conseguissem combater a bactéria. "Acreditava que esses animais seriam relativamente imunodeficientes e mais suscetíveis à sepse", diz Murilo Chiamolera, um dos orientadores do trabalho. A pesquisa começou há cinco anos no HC, em São Paulo. Contou com o apoio de cientistas holandeses e franceses foi apresentada ao mesmo tempo no Brasil e na França, graças a um convênio da Universidade de São Paulo (USP) com a Universidade de Paris 7.

Receptores

Os cientistas descobriram uma ação de proteção inesperada da Escherichia coli às células de defesa. "A bactéria pode se ligar a esses receptores sem anticorpos, inibindo a ação de proteção do organismo", explica Renato Costa Monteiro Filho, pesquisador do Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), na França, e coordenador do trabalho.

Os pesquisadores trabalham agora no desenvolvimento de uma molécula que iniba o aparecimento desses receptores, o que conseqüentemente fará com que a bactéria perca sua capacidade de se ligar às células de defesa e "enganar" o organismo.

Emílio Sant'Anna

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