Brasileiros aderem a ¿surfe no sofá¿ e abrem suas casas para turistas

SÃO PAULO ¿ Eles começaram devagar e eram apenas cerca de mil em 2005, mas, em três anos, ganharam o apoio de outras dez mil pessoas e este número não pára de crescer. Eles são os participantes daqui do projeto Couch Surfing (surfista de sofá), que começou em 2004 e já reúne mais de 500 mil pessoas em 40 mil cidades de todo o mundo.

Ana Freitas, repórter do Último Segundo |

A idéia pode parecer inusitada para os mais tradicionais, mas a proposta do grupo é exatamente a de receber turistas em casa ou de ser um hóspede em um lar até então desconhecido, recebendo em troca toda a riqueza que o convívio com outra cultura pode proporcionar.

Em geral, o projeto conquista quem foge dos tradicionais roteiros planejados por agencias de turismo. Os couchsurfers preferem se entregar à espontaneidade do local que visitam, trocam o guia profissional por um amigo que o apresente a cidade e o conforto de um hotel pela hospitalidade de um nativo.

Quando você viaja por uma agência, você fica dentro de uma bolha que te priva da troca cultural que uma viagem pode proporcionar. Através do CS, você interage com a cidade e tem a possibilidade de conhecer como de fato as pessoas vivem ali, explica Felipe Boaventura, estudante de direito de Belo Horizonte e couchsurfer desde 2007.

O funcionamento do grupo é simples. Basta acessar o site, criar um perfil com fotos, informações sobre seus gostos e filosofia de vida e começar a fazer os contatos. Diferentemente de outros sites de relacionamento, como Orkut e MySpace, o Couch Surfing tem um propósito bem definido e não é o de promover relacionamentos superficiais.

Divulgação
Vanessa, de amarelo, participa de jantar com CS
O objetivo do CS é proporcionar o intercâmbio cultural, disseminar a tolerância e não há maneira melhor de colocar isto em prática do que abrindo a sua casa para o outro, argumenta Vanessa Mathias, 28 anos, uma das embaixadoras do projeto em São Paulo e que já perdeu a conta de quantos hospedes teve nos últimos meses.

Hospedar e ser hospedado

Para funcionar, o CS depende de participantes dos dois lados da balança, o que cede o sofá (host) e o que surfa (guest). Quem vai viajar, busca no site sofás disponíveis nas cidades por onde vai passar. Na verdade, pode ser uma cama, um colchão inflável, ou até apenas um espaço para um colchonete.

Através do perfil dos usuários, é possível conhecer questões práticas sobre os hosts, como a facilidade de transporte perto da casa, a permissão para fumar no ambiente onde ficará hospedado, se há animais ou outras pessoas vivendo no local, etc.

Quem hospeda é quem dita as regras, explica Vanessa. O site não impõe normas para a hospedagem, tudo é definido pelo consenso dos usuários. Geralmente as pessoas que participam do CS têm uma cabeça muito aberta. Também são bastante participativas nas tarefas da casa, lavam o que sujam e ajudam na cozinha, comenta Felipe.

O viajante couchsurfer geralmente está mais interessado nas pessoas que nos pontos turísticos da cidade que visita e consegue com o apoio do seu cicerone fazer coisas que dificilmente encontraria recomendado em um guia de turismo. Segundo os participantes, quem disponibiliza seu sofá para um estranho abre a sua casa para a influência de um hábito cultural muitas vezes totalmente diferente dos nossos. É como viajar sem sair de casa, diz o mineiro.

O estudante teve uma experiência intensiva no CS em poucos meses. Apenas cinco dias após se inscrever no site, recebeu o pedido de hospedagem de um dos embaixadores do CS no mundo. O holandês Walter Heck chegou com mala e cuia poucos dias depois e se tornou um amigo de infância. Deixo claro no meu perfil que trabalho durante a semana, e que nos sábados e domingos posso dar mais atenção para o guest. Isto porque a idéia não é só hospedar uma pessoa, é apresentá-la a sua rotina, aos seus amigos, a sua cidade, conta Felipe.

Arquivo pessoal
O holandês Walter Heck já recebeu 120 pessoas
Walter chegou ao Brasil em dezembro e ficou em vários sofás até alugar seu próprio apartamento. No entanto, sua experiência é ainda mais rica no papel de host, uma vez que já hospedou cerca de 120 pessoas em sua casa, na Holanda.

Ser um host me possibilita conhecer gente do mundo inteiro sem sair de casa. O CS mostra que você não precisa ir a lugar algum para ter uma troca cultural rica. Recebi pessoas dos países mais diversos, como China, Finlândia, Estados Unidos, etc.

O holandês comenta que nunca teve problemas com seus hóspedes que não teria com um amigo em casa. A relação é baseada na confiança mútua e o único problema que tive foi com um americano que usou o telefone para fazer ligações interurbanas sem pedir.

Amigos em 200 países

Uma terceira forma de interagir proporcionada pelo CS é simplesmente levando um couchsurfer para sair. O site permite que o usuário se cadastre apenas como drink and coffee, ou seja, não disponibilize uma hospedagem, mas se coloque como um amigo na cidade.

Arquivo pessoal
Felipe é recebido por família argentina
A primeira viagem de Felipe após se cadastrar no CS foi para Buenos Aires. Ele já tinha planejado ficar em um albergue e preferiu não mudar sua programação para se hospedar na casa de um portenho. No entanto, logo ao chegar, foi recepcionado por um couchsurfer que o levou para conhecer a cidade e outros membros do projeto no País. Resultado, Felipe teve a oportunidade de ter uma referência local para seu roteiro de viagem, conheceu o churrasco feito da maneira mais tradicional da Argentina e transformou amizades virtuais em reais.

Já a experiência do músico Thiago Pinheiro em turnê por Xangai lhe rendeu inspiração para a composição de um disco inteiro. Já estava na cidade quando resolvi contatar alguém através do CS que pudesse me levar para conhecer melhor os lugares. Foi assim que apareceu a Sarah, uma menina belga que me apresentou a noite de Xangai e fez da minha viagem um grande aprendizado, relata.

De volta ao Brasil, Thiago resolveu se envolver de vez com o projeto e ganhou o apoio em casa de sua mãe, Majô Pinheiro. Gosto muito dos jovens e aprendo muito com os que chegam para passar alguns dias lá em casa. Não falo nem inglês, mas dificuldade de comunicação não tenho nenhuma. Não há gesto que não ajude, comenta sorrindo.

De janeiro para cá, mãe e filho já receberam quatro estrangeiros, todos com muito mimo. Quero que as pessoas curtam a estadia, não se preocupem em ficar arrumando as coisas, mas isto depende mesmo de cada um, diz Majô. Não raro, porém, o hóspede também encara a cozinha e oferece um jantar dentro dos seus costumes.

Para Thiago, o choque cultural é o interessante de todo o projeto. O choque faz parte, é o que dá a graça. As pessoas cruas, no escuro mesmo, e querem saber o que você come, o que você faz, é muito interessante.

Segurança

Desconfiados, os brasileiros se deparam no Couch Surfing com uma série de procedimentos que ajudam a transmitir segurança na relação entre host e guest. O site não se responsabiliza por danos morais e materiais que o convívio pode causar, mas orienta seus participantes a reconhecerem um bom hóspede ou hospedeiro.

Primeiro, é possível pagar uma taxa de cerca de U$ 12 para ser verificado. Os organizadores do site enviam uma carta para o participante com uma senha, que deve ser inserida depois no site, confirmando que o endereço do usuário realmente existe e que ele vive ali. Membros verificados são mais procurados nos campos de busca de sofás disponíveis e são mais facilmente aceitos também como hóspedes.

Vanessa, porém, recomenda que as pessoas fiquem atentas para o que outros usuários dizem sobre a pessoa em seu perfil. É possível dar referências para os couchsurfers que conheceu e estas referências não podem ser apagadas por quem as recebe. Ou seja, um depoimento ruim não pode ser deletado, como ocorreria em outras comunidades virtuais, como o Orkut.

Há também os voluntários do projeto, que verificam os perfis para saber se as pessoas estão ali pelas razões certas. Uma pessoa que manda mensagens com propósitos que não são os do site e são reportadas como spam podem ter seu perfil apagado, explica.

Como uma das embaixadoras e voluntárias do CS, Vanessa checa diariamente novos perfis e orienta os calouros sobre como usar as possibilidades oferecidas pelo site para estreitar os relacionamentos. Para quem entra, recomendo que procure a comunidade de sua cidade passe a freqüentar os encontros locais. Assim é possível ganhar referências e começar a criar sua rede de amigos.

Leia mais sobre: viagens

    Leia tudo sobre: viagem

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG