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Brasil reforça combate a mulas do tráfico boliviano

CORUMBÁ, Mato Grosso do Sul - O camelô Bigmar Arancibia diz que seu negócio andava muito ruim e que ele não tinha mais como alimentar a mulher e os filhos. Agora, está numa cadeia na cidade fronteiriça de Corumbá e provavelmente não verá a família durante anos.

Reuters |

A polícia o prendeu com 3,5 quilos de pasta de coca na sacola quando ele aparentemente seguia os passos de milhares de "mulas" que atuam nesta conhecida rota do narcotráfico entre os Andes bolivianos e as cidades brasileiras.

"Eu não tinha dinheiro suficiente para viver", disse à Reuters Arancibia, 33, soluçando em uma cela lotada e quente de Corumbá.

Ele alega que um amigo colocou a droga na sua sacola antes que ele saísse de Santa Cruz para comprar mercadorias em Corumbá. A polícia acha a história improvável.

A pobreza leva as "mulas" a assumirem riscos terríveis. Algumas mulheres colocam pacotes do tamanho de bolas de beisebol em suas vaginas, e muitos engula cápsulas com cocaína. Uma mulher passou 30 dias internada para expelir 98 cápsulas que tragara.

"É um trem humano de contrabando - Corumbá é um dos principais portos de entrada do Brasil para drogas e armas", disse Mario Nomoto, delegado da Polícia Federal.

A droga contrabandeada por Corumbá acaba alimentando a violência em cidades brasileiras, como o Rio, e dependência em metrópoles europeias, como Madri e Londres.

DEA AUSENTE

As autoridades brasileiras agora temem um aumento na oferta de drogas da Bolívia depois de o governo de Evo Morales ter expulsado agentes da DEA (órgão antidrogas dos EUA) acusados de espionarem o governo e entrarem em conluio com a oposição boliviana. Washington, que nega as acusações, vinha gastando 25 milhões de dólares por ano no combate às drogas na Bolívia.

"Estamos preocupados. A DEA fornecia recursos, inteligência, logística - sua partida não é boa", disse o delegado Paulo Tarso, chefe da unidade antidrogas da PF, em Brasília.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve em janeiro em Corumbá para oferecer ao governo boliviano helicópteros para o combate ao narcotráfico, num sinal da preocupação de Brasília com o problema.

A Bolívia promete arcar por conta própria com os custos do combate às drogas, mas também busca ajuda internacional não-americana.

As autoridades dizem que o tráfico de cocaína já aumentou muito desde o início do governo Morales, um ex-líder dos produtores de coca que defende o cultivo dessa planta para fins tradicionais, mas não para a produção de cocaína.

Entre 2005 e 2007, a produção boliviana de cocaína saltou de 80 para 104 toneladas, segundo o Escritório da ONU para Drogas e Crimes.

"O fluxo da Bolívia aumentou. Alguns países produtores precisam intensificar a luta, como a Colômbia fez", disse Tarso, da PF. Ao contrário da Bolívia, a Colômbia é um dos principais aliados e beneficiários de ajuda dos EUA na América Latina.

Cerca de 80 toneladas de cocaína entram por ano no Brasil, sendo grande parte da Bolívia, e aproximadamente metade acaba sendo reexportada para a Europa e os Estados Unidos, segundo a PF e a ONU.

Dos laboratórios clandestinos da Bolívia até os atacadistas de São Paulo, a droga troca de mãos três ou quatro vezes, segundo a polícia. Pelas mesmas rotas que partem da Bolívia e do Paraguai, os traficantes também trazem armas ilegais para proteger seu negócio. Muitas dessas armas acabam nas mãos de quadrilhas em cidades como o Rio, onde há frequentes confrontos entre traficantes ou deles com a polícia.

Nos últimos anos, o Brasil conseguiu alguns avanços no combate ao tráfico pela fronteira, explodindo pistas de pouso ou trilhas usadas por traficantes e melhorando a inteligência. Em 2007, as autoridades apreenderam mais de 16 toneladas de cocaína.

MAIS CONTROLE NÃO BASTA

Na viagem de 420 quilômetros entre Corumbá e Campo Grande, os jornalistas da Reuters viram veículos passando sem serem parados em três postos de fiscalização policial.

Em Corumbá, uma fervilhante cidade fronteiriça cercada pela exuberante vegetação pantaneira, o comércio e a mineração prosperam. Mas grandes empresas são também fachadas para lavagem de dinheiro, e a polícia diz que algumas autoridades recebem subornos para fazer vista grossa.

"Isso foi construído com dinheiro da droga", disse um policial, apontando para um dos maiores edifícios da cidade.

A maioria dos especialistas concorda que é impossível para o Brasil controlar seus 9.000 quilômetros de fronteiras com os países que produzem cocaína (Colômbia, Peru e Bolívia) e com o Paraguai, que também faz parte da rota do tráfico e do contrabando.

Os traficantes constantemente mudam suas rotas e estratégias. Depois que em 2004 o governo sancionou a chamada lei do abate, que autoriza a derrubada de aviões suspeitos, os traficantes abandonaram os voos de longa distância até o Estado de São Paulo, preferindo em vez disso rotas mais curtas, apenas cruzando a fronteira, que são mais difíceis de interceptar.

De acordo com a polícia, os traficantes também diversificaram seus riscos, despachando quantidades menores da droga com mais pessoas.

"A guerra contra a droga fracassou, e precisamos passar de uma abordagem puramente repressiva para a redução do consumo", disse o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que foi autor de um relatório sobre o assunto em conjunto com os também ex-presidentes César Gaviria (Colômbia) e Ernesto Zedillo (México), divulgado em fevereiro.

Os ex-presidentes defenderam mais ajuda para dependentes e a legalização gradual das drogas, começando pela maconha, menos nociva.

Em Corumbá, o delegado Nomoto diz que as patrulhas na fronteira são a segunda melhor opção por enquanto, mas que serão inúteis em longo prazo.

"Não se trata de um problema policial, e sim social. Estamos enxugando gelo aqui."

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