Brasil ganha autonomia com criação da 1ª linhagem de células-tronco embrionárias

SÃO PAULO - Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) divulgaram, nesta quarta-feira, que produziram a primeira linhagem de células-tronco embrionárias humanas do Brasil. As células foram obtidas de embriões que estavam congelados em clínicas de fertilização in vitro e que foram doados para pesquisa com a autorização dos genitores. O anúncio oficial da linhagem será feito nesta quinta-feira durante um simpósio em Curitiba.

Gregório Russo, repórter do Último Segundo |

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É o primeiro resultado prático obtido no Brasil desde a legalização das pesquisas com embriões humanos, em 2005, pela Lei de Biossegurança, que foi questionada na Justiça e ratificada em maio pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

De acordo com Lygia da Veiga Pereira, pesquisadora responsável pelo projeto, a produção desses embriões significa muito para a ciência brasileira. Nós conseguimos uma autonomia com relação às células-tronco. Pegamos um embrião, tiramos dele cerca de 50 células e conseguimos transformá-las em milhões, que podem ser usadas para o tratamento de inúmeras doenças, disse. 

Até agora, mesmo com a autorização legal, não havia linhagens produzidas no País, pesquisadores brasileiros interessados em trabalhar com células-tronco embrionárias humanas eram obrigados a importar linhagens congeladas de laboratórios estrangeiros, o que, de acordo com os pesquisadores, podia levar meses.

Com essa pesquisa nós conseguimos autonomia, não dependemos mais dos laboratórios internacionais para dar continuidade as nossas pesquisas. Acredito que essa foi a principal vitória que tivemos, declarou.

O trabalho da equipe da pesquisadora vem sendo feito há alguns ano e, cerca de três meses atrás, após diversas tentativas, os cientistas conseguiram extrair a primeira linhagem estável de células-tronco a partir de um embrião. Desde então, os pesquisadores passaram a multiplicar essas células. Finalmente, algumas semanas atrás, conseguiram determinar que as células obtidas eram pluripotentes, ou seja, podiam se transformar em qualquer tipo de tecido.

Lygia acredita que essa é apenas a primeira linhagem e que o Brasil tem condições de produzir outras. Nós provamos que somos capazes. Temos pesquisadores de muita qualidade e o governo tem investido nas pesquisas - até agora já investiu R$ 20 milhões. Acredito sim que essa foi apenas a primeira. Vamos trabalhar para isso, declarou.

Apesar do avanço, nem mesmo a pesquisadora consegue dizer em quanto tempo as células podem ser usadas em tratamentos de doenças. Isso depende de uma série de fatores. O importante é estarmos preparados para contribuir quando pudermos, disse.

STF libera pesquisas

Em 29 de maio, por seis votos contra cinco, o Supremo Tribunal Federal (STF) liberou as pesquisas científicas com células-tronco embrionárias sem nenhuma restrição, como previsto na Lei de Biossegurança, aprovada pelo Congresso Nacional em 2005.

O julgamento começou em março. A discussão foi interrompida por um pedido de vista do ministro Carlos Alberto Menezes Direito. Um dia antes, na quarta, o tema voltou à pauta do STF. Depois de quase 11 horas, o julgamento foi novamente suspenso e concluído apenas no dia seguinte, depois de cinco horas de sessão.

Grupos favoráveis e contrários a aprovação fizeram diversas manifestações para que o projeto fosse ou não aprovado. Os favoráveis alegavam que essa era a forma mais eficaz de cura para pessoas que tinham doenças degenerativas e incuráveis. Os contrários diziam que não se pode matar uma vida para salvar outra já que, para eles, uma vida começa já no feto e é muito difícil extrair a célula sem matar o embrião. 

Após o resultado, o mais antigo ministro do Supremo, Celso de Mello, explicou que não será preciso nenhuma regulamentação extra no texto da lei. A lei prevê que os embriões usados nas pesquisas sejam inviáveis ou estejam congelados há três anos ou mais e veta a comercialização do material biológico. Também exige a autorização do casal.

Entenda o que as células-tronco podem fazer

As células-tronco embrionárias podem se transformar em qualquer um dos tecidos do corpo, de neurônios a pele. Dessa forma, elas poderiam ser transformadas em células saudáveis e substituídas por células mortas, dando esperança a pacientes com mal de Parkinson e diabetes, por exemplo, que hoje não tem cura.

No futuro, com mais pesquisas, essas células poderiam até oferecer um meio de produzir órgãos completos para transplantes, indicam os pesquisadores.

(*com informações da Agência Estado)

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