Brasil exporta tecnologia e modelo de testes contra doença de Chagas

A doença de Chagas, descrita pela primeira vez há cem anos, em abril de 1909, pelo médico brasileiro Carlos Chagas e presente até hoje no País e na América Latina, chegou aos EUA. O Trypanosoma cruzi - parasita transmissor da enfermidade - foi levado pelos milhares de imigrantes latinos e hoje, segundo as autoridades americanas, infecta entre 80 mil e 120 mil pessoas.

Agência Estado |

Como o teste sorológico para a identificação do parasita nas doações de sangue - principal forma de contaminação por lá - não fazia parte da rotina de exames nos hemocentros, a doença se transformou em problema de saúde pública. A saída foi recorrer a pesquisadores brasileiros.

O médico José Antônio Marin Neto, da USP de Ribeirão Preto, participou a convite do Centro de Controle de Doenças do desenvolvimento de um protocolo para a implantação do teste sorológico, hoje aprovado pelo FDA, órgão de vigilância sanitária dos EUA. “Nós levamos o know how do tratamento de uma doença com que convivemos há cem anos por aqui”, diz Marin.

Apesar de os casos de doença de Chagas terem se disseminado por meio das doações de sangue, o perigo para os americanos pode ser maior. Assim como no Brasil, o barbeiro - vetor da doença - também é encontrado em ambientes silvestres do sul dos EUA. “Existe pelo menos uma dúzia de relatos de casos de contaminação autóctone pela picada do barbeiro”, afirma Marin. “Porém, ao contrário do Brasil, as chances de contágio por essa forma são menores para eles, pois as casas costumam ser mais bem acabadas.”

Além dos EUA, relatos de casos de doença de Chagas também já foram identificados em lugares como Espanha, Inglaterra e até mesmo no Japão. A situação preocupa a Organização Mundial da Saúde (OMS) diante do grande número de imigrantes que se deslocam todos os anos para esses países. Em fevereiro deste ano, uma reunião do órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU) definiu o modelo brasileiro para testes sorológicos - desenvolvido pela Fundação Pró-Sangue, ligada ao Hospital das Clínicas, de São Paulo - como o “padrão ouro” a ser seguido em todo o mundo e a fundação como centro mundial para o controle da doença.

O painel sorológico brasileiro concorria com um modelo desenvolvido pelo próprio FDA, e foi escolhido por ter sido criado há mais de dez anos e por ser também o modelo utilizado pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). “Se uma empresa ou instituição de pesquisa em qualquer lugar do mundo resolver comercializar ou implantar o teste para a doença de Chagas, deverá seguir o nosso modelo”, explica o diretor da Fundação Pró-Sangue, Dalton Chamone.

Emilio Sant’Anna e Alexandre Gonçalves

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG