Em navio francês, País encerrou ontem viagem que encontrou minérios a mais mil metros de profundidade no Atlântico

Voltou ontem ao Rio o navio Marion Dufresne, que o governo brasileiro alugou da França para promover pesquisas geológicas a milhares de metros de profundidade no sul do Atlântico. A expedição – a segunda de uma série de quatro – foi ao Alto do Rio Grande, uma cordilheira no solo do oceano. Nessa região, de águas internacionais, indícios apontam uma concentração relevante de minérios valiosos.

Alguns cientistas acreditam que essa descoberta tem potencial para ser, para a mineração, o que foi o pré-sal para a indústria petrolífera brasileira.

Neste ano, o Brasil investirá R$ 48 milhões para enviar o Marion Dufresne quatro vezes até a região. É a primeira vez que o Brasil manda uma missão até a plataforma profunda do Atlântico Sul, a mais que o dobro de distância da costa do que os campos do pré-sal. Enquanto o solo de regiões do Pacífico e de outros mares já possui blocos cedidos a diversos países, as profundidades além de mil metros no sul do Oceano Atlântico permanecem intocadas pelo homem.


A missão chefiada pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM) contou com geólogos, oceanógrafos, biólogos, entre outros cientistas. Nenhuma empresa brasileira se interessou ainda pelas pesquisas, pagas pelo governo federal.

A plataforma oceânica é considerada Patrimônio Mundial da Humanidade. Ela fica além das tradicionais duzentas milhas de costa que o Brasil possui e mais o que é reivindicado juridicamente. Sua exploração efetiva, portanto, só é possível quando permitida pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito o Mar (CNUDM).

A distribuição dessas áreas sem pátria se realiza da mesma forma como ocorreu a ocupação da Antártida. Determinado país mostra interesse e faz pesquisas primárias para desenvolver algum tipo de atividade no fundo do mar. Em seguida, pede requerimento a entidade ligada à CNUDM. O Brasil deve pedir oficialmente para explorar um bloco do Elevado do Rio Grande em 2012, diz o diretor-presidente do CPRM, Manoel Barretto.

Essa região está muito além da placa continental jurídica brasileira, onde ficam os blocos do pré-sal. As pesquisas ocorrem no espaço conhecido como fossa oceânica, onde a lâmina d’água chega a mais de 7 mil metros até se encontrar solo - enquanto que, na região do pré-sal, a coluna de água é de centenas de metros..

As três metas brasileiras

A missão de conseguir blocos em águas internacionais no Atlântico Sul carrega três metas fundamentais para o Brasil, explica Barretto. A primeira é dar o primeiro passo em um tipo de pesquisa que já é feita por diversos países desenvolvidos e em desenvolvimento – principalmente no Oceano Pacífico.

“O Brasil é o último dos Bric (grupo que inclui também Rússia, Índia e China) a requerer um espaço no oceano profundo para pesquisar”, diz Barretto. Cuba, por exemplo, tem direito a blocos que requereu ainda em parceria com a antiga União Soviética, há mais de 20 anos.

Outro motivo estratégico é ocupar espaços e evitar que consórcios de outros países tenham posições privilegiadas a poucas milhas do nosso litoral. Cada bloco reservado pelo Brasil implica a reserva de bloco de igual extensão para a Humanidade, onde nunca haverá exploração por outro país, segundo as regras da CNUDM. Portanto, ocupar espaço significa evitar que outros pontos estratégicos sejam ocupados por demais países.

A última razão, que pode ser a mais relevante no longo prazo, é econômica. No fundo do Atlântico, onde o Brasil desenvolve pesquisas, já foram encontrados nódulos de minerais cobaltíferos e carbonático, além das chamadas terras raras. “Ali pode haver muito dos minerais que são a maior sensação atual e no futuro, como o lítio, usado em produtos de alta tecnologia.” Também pode haver muito calcário, mineral usado como fertilizante que é importado pelo Brasil atualmente. “São reservas estratégicas”, completa Barreto.

O fundo do mar é tido como a última fronteira para a mineração no mundo, que um dia terá de ser explorada, quando os minérios em terra ficarem mais raros. A visão assemelha-se até ao que tem acontecido em um momento presente com o petróleo, que tornou interessante a países como o Brasil buscá-lo em locais mais remotos, como o pré-sal.

Mas, assim como ocorreu com o pré-sal, a exploração comercial dessas jazidas ainda demanda muitos anos de pesquisa para se tornar possível e viável comercialmente. Contudo, já existem ideias de como fazê-lo. Uma delas, explica Barretto, é enviar um equipamento que destrua parte dessas rochas e outro que sugue o conteúdo.

Na missão do Marion Dufresne, uma draga foi arrastada sobre o fundo do oceano e trouxe uma porção de amostras à tona, das quais se inferiu o potencial de exploração. “A exploração ainda é experimental, mas tecnicamente sabemos que é possível”, diz Barretto.

A próxima fronteira


O governo brasileiro anda tão animado com as pesquisas que já demarcou uma futura segunda frente de prospecção em mar profundo. Seria na região do arquipélago São Pedro e São Paulo, a última fronteira do Brasil no Atlântico.  Assim como no Elevado do Rio Grande, a região do arquipélago fica próxima a uma fenda das placas tectônicas bastante prolífica para o surgimento de minerais de interesse comercial.

Nesse caso, as pesquisas poderiam até ser mais aceleradas, porque se trata de área nacional, dentro ainda da placa continental e, portanto, sem necessidade de ser requerida à Aria. Naquela região, a expectativa é encontrar nódulos de sulfetos, que podem resultar em elementos como cobre, níquel e zinco.

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