SÃO PAULO (Reuters) - O Brasil deveria aproveitar sua posição de destaque na área agrícola e apresentar um candidato à direção-geral da FAO, o órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, cujas eleições estão previstas para o próximo ano, defenderam ex-ministros da Agricultura brasileiros nesta terça-feira. Um sul-americano no comando da entidade permitiria que a região, uma das com maior potencial de crescimento de safras, tivesse um representante no órgão à altura de sua importância, acrescentaram eles.

"Faz 16 anos que um senegalês (Jacques Diouf) está à frente da FAO. Antes disso, foram 16 anos de um libanês (Edouard Saouma). São pessoas competentes, mas não são de países agrícolas", afirmou o ex-ministro da Agricultura do Brasil Roberto Rodrigues a jornalistas, durante lançamento de evento do World Agricultural Forum (WAF), que acontece em 12 e 13 de maio em Brasília.

O evento, o primeiro promovido pela organização não-governamental na América Latina, deverá discutir metas de produção agropecuária, em um contexto que inclui a região, especialmente a América do Sul, como aquela capaz de dar uma resposta à crescente demanda global por alimentos.

"Caberia ao WAF propor que um brasileiro seja o novo presidente (da FAO)", acrescentou Rodrigues, lembrando que essa é uma decisão de governo.

Ele disse já ter conversado com representantes do governo brasileiro. "Aparentemente, houve uma aceitação razoável", declarou.

Para o ex-ministro, seria necessário "melhorar a gestão da FAO, reformá-la e transformá-la naquilo para o qual ela foi criada: um organismo que trate de agricultura e alimentação".

Segundo a própria FAO, a demanda global por alimentos crescerá 70 por cento até 2050. E a entidade ainda prevê que os países sul-americanos e a África subsaariana serão as regiões com maior capacidade de atender aos novos consumidores de países emergentes, que liderarão o crescimento da população global, que deve saltar dos atuais 6,7 bilhões para 9 bilhões de habitantes em 2050.

E daí a importância de um brasileiro participar do processo, no comando da entidade, segundo os especialistas.

"Queremos criar uma nova FAO, é isso que eu pretendo, ou melhor, o que eu proponho", declarou Rodrigues, ressaltando que já tem um candidato para sugerir: o pesquisador e ex-presidente da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), Silvio Crestana.

O ex-ministro Marcus Vinicius Pratini de Morares, também presente na entrevista, afirmou que o Brasil teria pelo menos seis nomes com condições de disputar a direção da FAO. Ele também disse não ser candidato.

"Não quero dizer nomes para não queimar", destacou Pratini de Moraes, citando também a necessidade de reformar a FAO, que "gasta 42 por cento de seu orçamento com a sua sede".

Já Rodrigues ressaltou a importância de o Brasil estruturar a sua candidatura logo, para garantir suas chances. "Os conchavos começam no segundo semestre deste ano", destacou Rodrigues.

O ex-ministro da Fazenda brasileiro e diplomata Rubens Ricupero afirmou que um órgão como a FAO poderia ter uma atuação mais forte em questões relacionadas ao comércio mundial, visando a queda de barreiras.

Para o ex-ministro da Agricultura da Argentina Miguel Campos, o fórum internacional de maio pode ser um bom momento para a região lançar o seu candidato. "A conferência tem que ter algo de impacto", destacou.

(Reportagem de Roberto Samora)

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