Brasil conta com trigo russo recém-liberado, diz Stephanes

Por Ray Colitt e Roberto Samora BRASÍLIA/SÃO PAULO (Reuters) - O Brasil terá de importar entre 2,5 milhões e 3 milhões de toneladas de trigo de fora do Mercosul este ano, e o país conta com abastecimento do cereal russo para atender suas necessidades, disse nesta quinta-feira o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes.

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A necessidade de importar também o trigo da Rússia, que obteve liberação fitossanitária nesta semana por parte da Secretaria de Defesa Agropecuária, ocorre diante de uma oferta baixa do produto na Argentina, tradicionalmente o principal fornecedor brasileiro.

"Temos interesse em importar da Rússia parte desse volume", afirmou Stephanes a jornalistas em Brasília.

Apesar de um rumor no mercado externo de que um carregamento de trigo russo já teria sido adquirido por uma empresa brasileira, traders e fontes da indústria do Brasil não tinham a informação nesta quinta-feira.

Um dos obstáculos para a importação de trigo fora do Mercosul pelo Brasil seria a Tarifa Externa Comum (TEC) de 10 por cento, que o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior está avaliando zerar para que o Brasil possa adquirir o produto com menores custos. Outras origens possíveis são os EUA e o Canadá.

Mas, de acordo com uma fonte de uma multinacional, o trigo russo está bastante competitivo, mesmo com TEC, em relação ao produto da Argentina, onde há escassez.

De acordo com a fonte, que preferiu ficar no anonimato, o trigo russo para entrega no porto de Santos, com custo, frete, TEC e tarifa de Marinha Mercante incluídos, sairia por 238 dólares por tonelada, contra 249 dólares do argentino.

Na base FOB, o trigo russo sairia a 168 dólares por tonelada, contra 220 dólares do argentino.

Com as restrições às exportações impostas pela Argentina, cuja safra caiu em 2008/09 para cerca de 8 milhões de toneladas, praticamente pela metade em relação à temporada 07/08, os moinhos brasileiros esperam a queda da TEC para iniciar compras fora do Mercosul, especialmente do produto dos EUA ou do Canadá, com características mais apreciadas pela indústria de moagem.

"O trigo russo está mais barato, mas é um trigo fraco", afirmou a fonte da multinacional.

Quem prefere o trigo norte-americano ou canadense aguarda uma queda na TEC.

"Acho que caminha a passos largos para uma isenção da TEC", afirmou Luiz Martins, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo de São Paulo, o principal mercado consumidor do país.

PRODUTOR GAÚCHO PROTESTA

A Instrução Normativa número 4 que autorizou importações de trigo russo, antes barrado por falta de um acordo sanitário, ainda determina que o produto não entre no país pela região Sul, onde está a mais forte região produtora.

A norma também afirma que os grãos da Rússia poderão ser processados exclusivamente nos moinhos localizados na região portuária, sendo vedado o trânsito interno do produto in natura importado.

A notícia pegou de surpresa os produtores do Rio Grande do Sul, Estado que produz um trigo mais "soft" e seria concorrente de boa parte do trigo produzido na Rússia.

"A negociação não houve ainda, isso está em negociação. Isso estava para ser decidido...", declarou o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro), ao ser informado sobre a publicação da Instrução Normativa.

De qualquer maneira, segundo Polidoro, o setor não abre mão da manutenção da TEC, com o objetivo de pelo menos dificultar a entrada do produto russo no Brasil.

"O trigo russo realmente, pelo que se sabe, é igual o nosso do Rio Grande do Sul e entra por um preço que, com TEC ou sem TEC, é mais barato que o nosso", destacou, lembrando que a qualidade do produto russo "não vai resolver o problema da indústria de panificação".

O trigo soft é mais indicado para a produção da indústria de biscoitos e tem menor demanda no Brasil do que o chamado trigo duro, mais adequado a farinha para pão.

"Eles não querem que o Brasil produza trigo. Querem importar. Mas na verdade nós vamos trancar o pé", acrescentou ele, dizendo que instará a Assembléia Legislativa do Estado a se manifestar contra a liberação do trigo russo.

O fato de a instrução não permitir a entrada pelo Sul não alivia o problema, segundo Polidoro, pois o Rio Grande do Sul é "exportador" de trigo para outros Estados brasileiros e até mesmo para o exterior, uma vez que não consome toda sua produção internamente.

Veja mais detalhes da Instrução Normativa em: http://extranet.agricultura.gov.br/sislegis-consulta/consultarLegislacao.do?operacao=visualizar&id=19493

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