Por Maria Pia Palermo NITERÓI (Reuters) - Equipes de resgate trabalhavam intensamente nesta quinta-feira em um cenário de destruição em Niterói, onde até 200 pessoas podem estar soterradas após um deslizamento provocado pela chuva que derrubou dezenas de casas construídas numa área em que existia um lixão desativado.

As chuvas que atingem o Rio de Janeiro desde segunda-feira deixaram ao menos 173 mortos, a maioria devido a deslizamentos. O número de vítimas da tragédia deve subir, pois dezenas de pessoas ainda estão desaparecidas após o desmoronamento da noite de quarta-feira que atingiu 50 casas no Morro do Bumba, em Niterói, cidade que registrou maior número de mortos em todo o Estado.

"Moravam cerca de 200 pessoas, mas não temos como estimar quantas estavam no local e podem estar soterradas", disse à Reuters o vice-governador, Luiz Fernando Pezão (PMDB), que estava no local do desastre, onde voltou a chover forte nesta quinta.

Além de residências, foram soterrados estabelecimentos comerciais, creches e igrejas. Doze corpos foram retirados dos escombros até o fim da tarde.

"Tecnicamente é impossível achar alguém com vida", disse uma fonte envolvida nas operações de resgate. "Se não morreu pelo trauma, foi pelo efeito do gás (metano do lixo)."

O terreno acidentado onde estavam as casas arrastadas pela terra que desmoronou já abrigou um aterro sanitário. De acordo com o prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira (PDT), o lixão estava desativado há 50 anos, mas a população afirma que o local deixou de funcionar há 20 anos.

A estimativa é de que foram deslocados 600 metros quadrados de terra. Na base do morro, a montanha de terra acumulada chegava a altura aproximada de um prédio vizinho de dois andares.

As equipes de resgate usam quatro retroescavadeiras e oito escavadeiras de grande porte incessantemente sob a chuva para retirar o acumulado de terra do local. Segundo os bombeiros, o trabalho tem que ser feito com cuidado e devagar pois há possibilidade de haver vítimas em meio à terra.

Moradores observavam do topo do morro e de casas altas na vizinhança. Carros de bombeiros estavam prontos para o resgate dos mortos e feridos.

A empregada doméstica Solange de Lima, 37, que morava há quatro anos no local, comemorou ter conseguido escapar da tragédia com suas três filhas, apesar de ter perdido a casa na parte baixa do morro e ter sido obrigada a ir para um abrigo.

"Saímos correndo com a roupa do corpo e pulamos o muro. Fiquei toda arranhada, mas conseguimos sobreviver", disse.

AJUDA DE R$200 MI

"Não é hora de questionar o por que de terem permitido as construções, a hora é de solidariedade", disse o governador Sérgio Cabral (PMDB) em visita ao morro acompanhado de outras autoridades.

Segundo Cabral, serão necessárias no mínimo duas semanas de trabalho ininterrupto das equipes para retirar os escombros e encontrar todas as vítimas do desastre.

O governo federal anunciou nesta quinta que vai liberar 200 milhões de reais para o Estado. Serão 90 milhões de reais para a capital e 110 milhões de reais a serem destinados aos municípios de Niterói, São Gonçalo e demais cidades atingidas pelas enchentes. O pedido do Rio de Janeiro era por 370 milhões de reais.

O ministro do Trabalho e Emprego, Carlos Lupi, disse que o governo poderá liberar o FGTS das vítimas das chuvas, como foi feito no caso das enchentes em Santa Catarina, em 2008. Mais de 15 mil pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas como resultado das chuvas no Estado.

Um contingente de 90 homens do Corpo de Bombeiros e cerca de 18 da Força Nacional de Segurança trabalham no fim da tarde nos esforços de resgate.

"O governo federal está totalmente disposto a fazer o que tem que ser feito para ajudar o Rio de Janeiro", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a jornalistas em Brasília.

SUSPEITA DE ARRASTÃO

Com a tragédia no Morro do Bumba, subiu para 98 o número de mortos pelas fortes chuvas em Niterói desde a segunda-feira. Na capital 52 pessoas morreram afetadas pelo temporal; em São Gonçalo houve 16 mortes, Maricá 3, Nilópolis 2, e Petrópolis e Magé registraram uma morte cada.

Durante a tarde, uma suspeita de arrastão no centro de Niterói levou comerciantes a fecharem suas lojas e causou medo na população que caminhava pelas ruas.

"Houve um boato de que haveria arrastão no centro, em Icaraí e no Fonseca. A população ficou temerosa e o comércio fechou as portas, mas não há nada de concreto", disse o tenente Toledo, da Polícia Militar, que fazia guarda portando um fuzil numa esquina no centro da cidade.

Uma moradora da cidade que identificou-se como Tânia disse que estava na rua quando viu homens com armas e com pedaços de pau invadindo uma loja.

"Vi gente correndo com arma na mão, com pedaço de pau, quebrando carro e invadindo loja. Era uma cena de filme, mais parecia o fim do mundo. Fiquei apavorada e estou tremendo até agora", afirmou ela.

De acordo com a Polícia Militar, supostos traficantes aproveitaram a tragédia e se infiltraram em uma manifestação de moradores de um morro de Niterói para roubar uma loja, o que deu início aos boatos de arrastão e levou comerciantes a abaixarem suas portas.

O temporal que provocou a tragédia no Estado do Rio começou a cair no final da tarde de segunda-feira e levou o caos à capital, que praticamente parou na terça-feira. Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), somente na terça-feira choveu mais do que o esperado para todo o mês de abril na cidade.

A maioria das mortes aconteceu em regiões de encostas e áreas de risco. Outros deslizamentos menores foram registrados na capital também nesta quinta-feira.

(Reportagem adicional de Pedro Fonseca e Rodrigo Viga Gaier)

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