Blogs não substituem a terapia tradicional, diz especialista

No lugar do pequeno cadeado, uma senha, ao invés de clipes segurando penduricalhos de valor afetivo, links para as memórias preferidas: páginas de amigos, álbum de fotos, sites interessantes. O diário dos anos 80 e as agendas estufadas da década de 90 são parte de um passado sem internet.

Agência Estado |

Hoje, o desabafo é virtual, via blog, mas com a mesma finalidade: transformar em letras as angústias pessoais. No entanto, o psicanalista aposentado Ruy Fernando Barbosa recomenda cautela com diário online, que pode não surtir o efeito da terapia tradicional.

Moacyr Scliar, médico e renomado escritor, também aposta no poder das letras sobre o psique humana. "Nos Estados Unidos há vários grupos de terapia que utilizam a poesia. As pessoas que fazem parte desses grupos lêem ou escrevem poemas com finalidade terapêutica", lembra. "Escrever é bom para todo mundo livro, blog, diário íntimo, e-mails, cartas, não importa: escrever é uma forma de auto-interrogação. No mínimo ajuda a pessoa a descobrir quem ela é", completa.

O psicanalista Ruy Fernando Barbosa, que já chefiou o setor de doenças afetivas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), recomenda cautela ao conferir status de terapia ao desabafo por escrito. "Sempre recomendei aos meus pacientes que escrevessem sobre seus conflitos. Essa atividade proporciona momentos terapêuticos, mas não é exatamente uma terapia e nem pode substituir um processo terapêutico tradicional. Diria que é uma terapia para quem não precisa de terapia", explica.

Barbosa argumenta que em alguns casos o diário online pode ser contra-indicado. "Como é público, o blog tem certa relação com o narcisismo: ao escrever para outros lerem, a pessoa pode criar uma imagem, uma personalidade falsa, em vez de aproveitar a escrita para elaborar melhor seus conflitos e praticar o autoconhecimento", conclui.

Giuliana Reginatto

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