Blogs não devem substituir a terapia tradicional, diz especialista

No lugar do pequeno cadeado, uma senha. Ao invés de clipes segurando penduricalhos de valor afetivo, links para as memórias preferidas: páginas de amigos, álbum de fotos, sites interessantes.

Agência Estado |

O diário dos anos 80 e as agendas estufadas da década de 90 são parte de um passado sem internet. Hoje, o desabafo é virtual, via blog, mas sua finalidade é a mesma de antigamente: oferecer espaço para angústias pessoais que só abandonam uma mente inquieta quando se transformam em letras.

A importância da escrita informal no manejo de conflitos psicológicos foi tema de uma pesquisa promovida pela AOL com 600 blogueiros e divulgada pela agência EFE. Para mais da metade dos entrevistados, escrever sobre inquietudes diárias na rede tem um efeito terapêutico. Outros 31% disseram que ter um blog substitui o psicólogo. A estudante Michelle Azevedo, de 17 anos, concorda com a conclusão da pesquisa. "Blog é como um diário, mas todo mundo pode ver. Então, quem comenta é como um psicólogo", diz ela, blogueira há cinco anos.

O estudante Felipe Rotilho Santos, de 18 anos, conta que praticou a blogterapia por mais de um ano. "O blog me ajudou bastante. Havia coisas muito pessoais, principalmente a respeito de relacionamento, sobre as quais eu não conseguia conversar. Postava no blog tudo o que acontecia e eu não conseguia dividir. Lá apareciam pessoas interessantes, elas me ouviam e davam conselhos na medida do possível. Mesmo se eu compreendesse que precisava de uma ajuda profissional não conseguiria devido ao orgulho",diz.

Moacyr Scliar, médico e renomado escritor, também aposta no poder das letras sobre o psique humana. "Nos Estados Unidos há vários grupos de terapia que utilizam a poesia. As pessoas que fazem parte desses grupos lêem ou escrevem poemas com finalidade terapêutica", lembra. "Escrever é bom para todo mundo. Livro, blog, diário íntimo, e-mails, cartas, não importa: escrever é uma forma de auto-interrogação. No mínimo ajuda a pessoa a descobrir quem ela é", completa.

O psicanalista aposentado Ruy Fernando Barbosa, que já chefiou o setor de doenças afetivas da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), recomenda cautela ao conferir status de terapia ao desabafo por escrito. "Sempre recomendei aos meus pacientes que escrevessem sobre seus conflitos. Essa atividade proporciona momentos terapêuticos, mas não é exatamente uma terapia e nem pode substituir um processo terapêutico tradicional. Diria que é uma terapia para quem não precisa de terapia", explica.

Barbosa argumenta que em alguns casos o diário online pode ser encarado até como contra-terapia. "Como é público, o blog tem certa relação com o narcisismo: ao escrever para outros lerem, a pessoa pode criar uma imagem, uma personalidade falsa, ao invés de aproveitar a escrita para elaborar melhor seus conflitos e praticar o auto-conhecimento", conclui.

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