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Bissamblazz leva jazz nativo a evento no Sesc, em SP

O peso sonoro do rock de bandas como The Who e Deep Purple, a música caipira de Alvarenga e Ranchinho, a música erudita de Mozart e Mahler, o choro de Pixinguinha e o jazz de John Coltrane e Duke Ellington. Foi essa a trilha sonora que, mais ou menos nessa ordem, levou o menino Magno Bissoli de Jacareí (SP) para a capital paulista, da capital paulista para Copenhague e, de lá, para Nativ (2009, selo Axis), o último disco da sua big band Bissamblazz, que se apresentará na segunda-feira no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, em São Paulo.

Agência Estado |

Será o segundo show do "Instrumental Sesc Brasil", cuja temporada teve início nesta semana com Pepeu Gomes e que trará ainda os três pernambucanos do Rivotrill (dia 19) e o flautista Altamiro Carrilho (dia 26).

O show terá um gosto ainda mais especial a Bissoli, um jovem senhor de seus 50 anos, que gosta de escolher as palavras da mesma forma que compõe. O som de "Nativ" faz um tributo às origens da música, à estranha sensação segundo a qual, independentemente da globalização, somos todos "nativos", ao incorporar o ritmo dos escravos no samba e no jazz.

O disco também é uma homenagem ao seu pai que, na segunda-feira, faria aniversário, uma grande saudade que Bissoli sente viva de seu maior fã. "Enquanto muitos diziam para eu desistir da música, ele me apoiava, mesmo sem condições", conta ele, que também é percussionista da Orquestra do Teatro Municipal de São Paulo. Foi seu pai que comprou seu primeiro violão e o incentivou a ver uma apresentação de Mazzaropi no circo. O avô o levava ao auditório da Rádio Clube de Jacareí aos domingos para ouvir música de raiz.

Com o violão, Bissoli formou uma banda com seis amigos que também queriam tocar violão para fazer rock pauleira. Como era muito violão para pouca corda, alguém tinha que abrir mão do instrumento. E ele foi o único que conseguiu reproduzir o ritmo do que ouvia numa velha bateria. "Eu não escolhi a bateria, ela me escolheu. Toco outros instrumentos, mas a forma de me expressar é com as duas mãos e os dois pés."

Dos bailinhos até vencer um prêmio num festival da cidade com uma música de protesto à ditadura militar, Bissoli foi ampliando, sem preconceitos, seu amor à música. No fim da década de 70, com o dinheiro dos discos que vendia da sua coleção, vinha a São Paulo para conseguir emprego na noite, tendo que dormir até dentro de cinemas. "Aproveitava o carpete e, de manhã, o banheiro. Se tivesse sorte dava até para lavar o pé."

Em São Paulo, tocou em vários "night clubs" como o Paddok e o Baiúca, em grupos nos quais sempre havia um cantor ou uma cantora. Até dava para improvisar, mas ele sonhava mesmo com a música instrumental e fazia planos para deixar o Brasil. Foi quando foi apresentado por um amigo ao trombonista dinamarquês Niels Neergaard, que o deixou fascinado ao relatar a cena do jazz na Copenhague dos anos 70 e 80.

Seis meses depois, Bissoli já estava lá, tocando com Niels, cuja parceria completa 30 anos em 2010 e da qual sairá ainda neste mês um novo disco. Niels estará na plateia do Sesc na segunda-feira. "A cada duas semanas, artistas como Art Blakey, McCoy Tyner, Herbie Hancock apresentavam-se lá naquele momento. Eu vi a primeira turnê do Wynton Marsalis, muito novinho, no show 'Art Blakey & The Jazz Messangers'. Tínhamos acesso aos músicos, íamos onde eles iam dar 'canja'. Era um cenário efervescente."

Repertório

A Bissamblazz, formada por 16 integrantes, tocará "Brasiliana", composta em 1988 com a inspiração que nasceu quando Bissoli lia muito Graciliano Ramos e Guimarães Rosa. Mas a introdução foi alterada quando ele orquestrou o canto de um casal de sabiá que fez morada no quintal da sua casa, em São Paulo. "Nessa música você 'ouve' o 'Grande Sertão Veredas' de certa forma, ou 'Primeiras Estórias'. Você vê o homem do cerrado", diz, referindo-se a dois livros de Guimarães Rosa.

Já a "But I am Not Hamlet" foi encomendada pela European Jazz Youth Orchestra, que pediu a Bissoli uma música inspirada no poema de mesmo nome do escritor dinamarquês Peter Poulsen. "Mas enquanto o poema diz 'se eu fosse Hamlet faria isso ou aquilo', na música eu afirmo 'eu não sou Hamlet'."

Além das músicas do "Nativ", a banda também tocará "God Save The Green", do disco "Caixa Preta" (2000, selo Axis), uma música engajada que faz tanto uma crítica à Inglaterra e aos Estados Unidos, como uma defesa à natureza. "Já que nós estamos destruindo tudo, pelo menos que Deus salve a natureza." E isso, sem dizer uma palavra. A música precisa ser entendida? "A música precisa ser sentida, isso é entendê-la. Mas ela pode ser desconstruída, para saber de onde veio a inspiração. Mas a música alcança uma esfera intangível, assim como o pensamento."

Serviço - Bissamblazz. Instrumental Sesc Brasil. Segunda-feira, dia 12, às 19 horas. Teatro Anchieta do Sesc Consolação, em São Paulo. 320 lugares. Rua Doutor Vila Nova, 245. Telefone: (11) 3234.3000. Livre. Grátis. Retirada de ingressos com uma hora de antecedência na bilheteria.

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