Biografia que inspirou filme revela dimensão humana do mito

SÃO PAULO - Usar o livro As Vidas de Chico Xavier como base para o roteiro do filme de Daniel Filho foi uma decisão natural. Afinal, a biografia escrita pelo jornalista Marcel Souto Maior é o mais completo relato sobre a vida do médium mineiro, que completaria cem anos no próximo dia 2 de abril. Segundo o autor, a ideia do livro veio depois de uma constatação simples: simplesmente não havia nenhuma biografia jornalística sobre este mito tão brasileiro e tão poderoso.

Augusto Gomes, iG São Paulo |


"Ao me aproximar de Chico, descobri a outra dimensão, mais humana, deste personagem 'sobrenatural'. Enfim, o Chico de carne e osso, um dos principais líderes religiosos do país, ganhou força", conta. As histórias coletadas por Souto Maior deram origem ao roteiro de "Chico Xavier, o Filme", escrito por Marcos Bernstein ("Central do Brasil" e "Zuzu Angel"). Na entrevista abaixo, ele fala sobre a origem do livro, sua relação com a fé e os encontros com o médium:

iG: Como surgiu a ideia de escrever uma biografia de Chico Xavier?
Marcel Souto Maior: Eu era subeditor do Caderno B do Jornal do Brasil - há 15 anos -  quando escrevi uma reportagem sobre a peça espírita "Além da Vida", fenônemo de bilheteria da época, com mais de dois milhões de espectadores. Ao levantar material sobre o tema, entrei em contato com a história de Chico Xavier  e fiquei impressionado com alguns dados sobre ele. Chico - na época com pouco mais de 80 anos - tinha escrito mais de 400 livros, vendido mais de 20 milhões de exemplares e doado os direitos autorais a instituições beneficientes. "Os livros não me pertencem. Eu não escrevi nada. Eles - os espíritos - escreveram", ele dizia, enquanto era investigado, perseguido, atacado e idolatrado também. Esta descoberta - de uma história única no Brasil - me levou a outra constatação: não havia nenhuma biografia jornalística sobre este mito tão brasileiro e tão poderoso. Por isso - por interesse jornalístico - decidi contar a história.

iG: Antes de escrever o livro, qual era a imagem que você tinha de Chico?
Marcel Souto Maior: Ainda criança, eu costumava passar férias em Araxá, cidade vizinha a Uberaba, onde Chico morava. Ele era um personagem da minha infância: o homem estranho que falava com os mortos. Uma figura meio "mal-assombrada". Ao me aproximar de Chico, descobri a outra dimensão - mais humana - deste personagem "sobrenatural". O homem que atendia e consolava milhares de famílias enlutadas - às voltas com o desespero de perdas de filhos, por exemplo; o homem que, apesar de pregar a imortalidade do espírito,  tinha medo da morte; o homem que se permitiu vaidades como o uso da peruca para "representar  melhor" o espiritismo. Enfim, o Chico de carne e osso, um dos principais líderes religiosos do país, ganhou força.  Por trás de toda aquela mansidão, havia um homem organizado, rigoroso e obstinado.

iG: E essa imagem é próxima do senso comum a respeito dele?
Marcel Souto Maior: Chico é uma figura controvertida, um mito polêmico, idolatrado por milhões de brasileiros e questionado por outros milhões de céticos. Para muitos brasileiros - a maioria, acho - é um santo. Para outros, uma fraude, ao atribuir a espíritos textos escritos por ele mesmo. Chico para mim foi um homem de fé, que construiu uma trajetória única movido por três sentidos básicos: o sentido de missão (difundir o espiritismo e a caridade no país), o sentido de aceitação (ele agradecia pelas dores e obstáculos que enfrentava e encarava o sofrimento como forma de "resgatar dívidas" e crescer) e o sentido da doação (ele abriu mão de ganhos financeiros, da família, da própria privacidade para se dedicar à sua missão). Estes são traços que não podemos negar a Chico, por mais céticos que sejamos. No fim da vida, Chico dizia: "Graças a Deus aprendi a viver apenas com o necessário."  E aos que previam a sua "queda" (desmascarado por fraudes, por exemplo), Chico respondia: "Não vou cair porque nunca me levantei."  Se Chico não tivesse fé não teria construído a história que construiu.

AE
Chico Xavier em abril de 2002, poucos meses antes de sua morte

iG: Você tinha algum tipo de crença religiosa antes de escrever o livro?
Marcel Souto Maior: Continuo sem religião, infelizmente. Adoraria ter uma fé consolidada, inabalável, mas estou sempre questionando os limites entre este mundo e o "outro". Costumo dizer que, entre o céu e a terra, existe uma caixa preta ainda insondável pra gente: o cérebro. O que é mental? O que é memória genética? O que vem do nosso inconsciente ou de uma dimensão espiritual? Penso nestas questões e sigo questionando, talvez por vício jornalístico. Mas Chico mudou - sim - minha percepção sobre nosso papel no mundo. "Ajuda o outro e você vai estar se ajudando". "Graças a Deus aprendi a viver apenas com o necessário". Estas frases de Chico - e seu exemplo de vida - me marcaram e me transformaram também.

iG: Como foram seus encontros com o Chico Xavier durante as pesquisas para a biografia?
Marcel Souto Maior: Chico tinha mais de 80 anos e sofria com sucessivas crises de angina e pneumonia quando o conheci. O que chamava atenção nele era a maneira como ele recebia, abraçava e consolava as famílias que o procuravam em Uberaba. Com o perdão do lugar-comum, Chico impressionava pela tranquilidade e esperança que conseguia transmitir.

iG: No livro, você conta dois episódios acontecidos durante encontros com Chico Xavier, um em que você chorou compulsivamente e outro em que sentiu a mão queimar. Hoje, como analisa isso?
Marcel Souto Maior: Não consigo explicar. Foram reações "físicas" mesmo, desvinculadas de emoções específicas. O corpo reagiu sem que eu tivesse noção do que estava acontecendo. Isso é estranho e um tanto desconcertante pra quem sempre se viu como cético. Até batizei os dois episódios - Mão Pegando Fogo e Lágrimas Inexplicáveis -, mas não tenho explicações para eles.

iG: Como era o processo de psicografia do Chico Xavier? Tinha algum horário, local ou ritual para acontecer?
Marcel Souto Maior: Chico psicografava sempre que não estava à frente de sessões no centro ou envolvido em outros compromissos como "divulgador" da doutrina espírita.  Escrevia num ritmo intenso para cumprir - segundo ele - uma meta estabelecida por seu guia espiritual, Emmanuel. "100 livros para começar", foi o que ele ouviu do mentor no início de seu "mandato mediúnico", como a comunidade espírita define. No início, ainda jovem, os textos "vinham" a qualquer instante e em qualquer lugar. Depois, com o tempo, Chico foi estabelecendo um horário, que variava de acordo com os compromissos de cada dia. Podia ser no meio da tarde ou durante a madrugada.

iG: O filme de Daniel Filho é baseado no seu livro. Você está envolvido de alguma maneira com a adaptação?
Marcel Souto Maior: Conversei com o roteirista Marcos Bernstein algumas vezes e - desde o início, desde o primeiro tratamento - fiquei muito feliz com o caminho escolhido por ele e Daniel para reconstituir a trajetória do Chico. O filme - assim como o livro - não quer doutrinar ninguém. Quem espera uma ode a Chico Xavier vai se surpreender.

iG: Vai haver uma reedição de "As Vidas de Chico Xavier" por causa do lançamento do filme?
Marcel Souto Maior: Vamos lançar sim - pela editora Leya - uma nova edição de Chico, com fotos e histórias inéditas. Outro lançamento, confirmado para março, é o de um foto-livro sobre os bastidores do filme de Daniel Filho. Coletei, com a ajuda da jornalista Patricia Paladino, várias histórias curiosas e surpreendentes que marcaram o dia-a-dia das oito semanas de filmagens. O livro é ilustrado por belíssimas fotos do Ique Esteves.

iG: No livro, você conta que até então nenhum médium havia recebido o espírito do Chico Xavier. Desde a publicação, isso nunca aconteceu?
Marcel Souto Maior: Não. Eurípedes, o filho de criação de Chico, não confirma a autenticidade de qualquer mensagem atribuída a Chico Xavier. Chico teria deixado com o filho - e com duas outras pessoas de sua confiança - três palavras-chaves que deveriam constar da primeira mensagem assinada por ele. Estas palavras ainda não apareceram...

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