Bexiga hiperativa pode trazer prejuízo à vida sexual

Por vergonha, portadores da síndrome da bexiga hiperativa enfrentam problemas na vida sexual

Agência Estado |

A síndrome da bexiga hiperativa figura entre os principais problemas urinários apresentados por pessoas de ambos os sexos. Manifesta-se por uma vontade incoercível de urinar, aumento no número de micções durante o dia e a noite e, em muitas vezes, é acompanhada por perda involuntária de urina, chamada de incontinência urinária.

Estima-se que 19% da população brasileira sofram dessa disfunção miccional. A respeito da elevada prevalência, somente um quarto dessa população busca atendimento especializado. As razões são diversas: acreditar na normalidade da situação, apesar do comprometimento marcante da qualidade de vida, associar a situação urinária a outras vivenciadas por parentes, crer na inexistência de um tratamento efetivo, ou simplesmente, vergonha.

O receio de expor a outra pessoa uma situação tão íntima quanto a incapacidade de conter a urina é algo usual. Em jovens, esse fato é ainda mais constrangedor e faz com que este grupo etário evite abordar o assunto mesmo em consultas médicas. Essa postura acarreta um distanciamento não apenas da possibilidade de um diagnóstico correto e tratamento efetivo, mas de pessoas próximas ao seu convívio.

Metade dos portadores de bexiga hiperativa evitam manter atividades sexuais. Um estudo publicado no Journal of Sexual Medicine avaliou o impacto da bexiga hiperativa na saúde sexual de mulheres. Enquanto 91% das participantes sem a disfunção vesical mantinham relações sexuais mais do que uma a três vezes por mês, apenas 50 % das portadoras de bexiga hiperativa mantinham essa atividade. Tal fato foi mais notório entre as mulheres com bexiga hiperativa e incontinência urinária. Neste grupo a diminuição da libido foi diretamente associada à coexistência da hiperatividade vesical.

O impacto da bexiga hiperativa na vida sexual envolve vários aspectos, tais como a diminuição do desejo sexual, o receio de perdas durante as relações, o constrangimento pelo odor de urina nas roupas e as feridas desencadeadas pela umidade local constante.

Não apenas mulheres sofrem de transtornos na esfera sexual. Entre os homens com bexiga hiperativa a atividade sexual cai a um terço e a disfunção erétil ocorre uma vez e meia a mais quando comparados a homens com a função vesical preservada. A disfunção erétil nesse grupo de pacientes se assemelha à observada em outras doenças classicamente envolvidas com essa fisiopatologia, como o diabetes mellitus e a hipertensão arterial.

A redução no prazer obtido durante a relação sexual e da satisfação da vida sexual levam estas pessoas a refutarem o relacionamento. Esse isolamento acarreta um círculo vicioso que conduz estas pessoas a evitar cada vez mais a abordagem do tema e a uma maior descrença na possibilidade de tratamento. Isto contribui para uma resposta pior às terapêuticas propostas e a uma maior probabilidade de abandono destas, com consequente aumento no risco de complicações.

As opções de tratamento são várias, desde medidas comportamentais e exercícios pélvicos à aplicação da Toxina Botulínica na bexiga, passando pelo uso de medicações orais. O tratamento cirúrgico figura como opção final, quando as precedentes falharam, o que tem ocorrido cada vez menos. A melhora da qualidade de vida após a obtenção de sucesso no tratamento é marcante também entre outras situações desencadeadas pela existência da bexiga hiperativa, como no desempenho profissional e na depressão.

O retardo no diagnóstico e tratamento acarreta um desgaste na vida sexual, muitas vezes com danos irreparáveis no relacionamento de um casal. Não apenas o controle miccional, ou a proteção ao trato urinário superior, em risco pela atividade aumentada da bexiga merecem a atenção. O reconhecimento deste efeito paralelo provocado pela bexiga hiperativa é crítico na sua abordagem e restabelecimento da qualidade de vida daqueles acometidos pela síndrome da bexiga hiperativa.

*Dr. José Carlos Truzzi é doutor em urologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Autor do livro: "Bexiga Hiperativa: aspectos práticos", pela editora O Nome da Rosa.

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