Beltrame contesta relatório da ONU sobre polícia do Rio

O secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, não quis comentar ontem as conclusões do trabalho de Philip Alston, relator especial do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas Sobre Execuções Arbitrárias Sumárias ou Extrajudiciais, em relação à política fluminense de combate ao crime. No entanto, em nota, a assessoria de comunicação da secretaria contestou Alston e identificou viés ideológico no texto dele.

Agência Estado |

O relatório de Alston, que também fez diagnósticos e recomendações sobre São Paulo e Pernambuco, criticou o modelo de "megaoperações" adotado no Rio desde 2007. Um dos principais alvos dele foi a ação que levou 1,3 mil policiais ao Complexo do Alemão (zona norte) em junho de 2007 e terminou com 19 mortos. Ele sugere a troca das operações pela presença policial permanente nas favelas dominadas pelo tráfico.

Para Alston, as megaoperações desperdiçam recursos, põem a população em risco, apreendem poucas armas e drogas e não conseguem desarticular grupos criminosos. "Na visão da secretaria, as afirmações do relatório são subjetivas, desfocadas da realidade e carregam forte viés ideológico", diz a nota da Secretaria de Segurança, que contesta a baixa apreensão de armas e drogas apontada pelo relator. Segundo a secretaria, somente no ano passado foi apreendido o número recorde de 220 fuzis.

No mesmo período, foram recolhidos 1.500 artefatos explosivos. "Equivocada também é a afirmação de que as ações falharam em desmantelar organizações criminosas. Crimes importantes como roubo e furto de veículos, roubo a estabelecimentos comerciais e homicídios tiveram expressiva redução nesta administração", argumenta a nota.

O relator também criticou o envolvimento de policiais em crimes e sugeriu a criação de unidades específicas para investigá-los. A Secretaria também respondeu com números, informando que mais de 350 policiais foram expulsos em um ano e meio. Segundo o órgão, a Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco) já centraliza o combate às milícias, consideradas prioridade.

Ações tímidas

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), presidente da CPI das Milícias da Assembléia Legislativa, lembra que na época da visita de Alston, em 2007, as investigações de milicianos, inclusive envolvendo políticos, ainda não tinham resultados. "As ações do governo na época eram muito tímidas. Hoje, aquela idéia do 'mal menor' foi superada. A Draco tem dado conta e há uma vontade política. Há um posicionamento claro em relação às milícias", admitiu Freixo.

Ao contrário da Secretaria, Freixo, que esteve com Alston no Rio, disse que o relator estava bem preparado e tinha informações de qualidade sobre a realidade local. O parlamentar concorda com Alston sobre as megaoperações. "Ele não está dizendo que o crime não tem que ser enfrentado. Está dizendo que entrar, matar 19 pessoas e sair não adianta. Houve arbitrariedades no Alemão e, hoje, o que mudou lá? Absolutamente nada."

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