Bela e reveladora biografia de Clarice Lispector é o livro perfeito para o Natal

SÃO PAULO ¿ ¿Clarice,¿ (assim mesmo, com a vírgula, numa referência ao estranho parágrafo inicial de um de seus romances), escrito pelo americano Benjamin Moser e publicado pela Cosacnaify, é o livro do Natal, das férias de verão e também ¿ por que não? ¿ o livro do ano. Indicado para quem gosta de biografias, um gênero ainda muito bem-sucedido nas livrarias reais e virtuais, deve ser devorado por quem gosta de literatura nacional ou universal e precisa ser descoberto por aqueles que simplesmente se deixam levar por um texto bem escrito.

Cadão Volpato, iG São Paulo |

Divulgação

Em 1961, Clarice datilografa com a máquina no colo: imagem está na capa da biografia

Apesar das 648 páginas em papel pólen, da capa dura que lhe dá uma aparência solene e na qual só se vêem os dedos da escritora batucando uma máquina de escrever e da ausência quase total de imagens, a obra merece entrar na bagagem de qualquer leitor adulto. Apenas porque é um grande livro, em todos os sentidos.

Clarice Lispector (1920-1977) morreu quando Benjamin Moser tinha um ano de idade. Como muitos leitores ao longo das últimas décadas, Moser foi capturado pela ficção e pela mística de Clarice. Ela foi e ainda é o personagem mais misterioso da literatura brasileira, uma esfinge que o autor tentou desvendar com uma pesquisa de vários anos, entre viagens às diversas cidades do mundo por onde ela passou, na companhia do marido diplomata, e entrevistas com todas as pessoas importantes que a conheceram. Desse trabalho exaustivo surgiram algumas revelações.

Chamá-la pelo primeiro nome não é só um gesto característico de intimidade brasileira. Clarice Lispector parece falar ao coração de cada um dos seus leitores. Quem a lê também é convidado a preencher lacunas, usando a própria imaginação.

Ela foi uma vanguardista milagrosa já na estréia, aos 23 anos, com Perto do Coração Selvagem, o romance que inicia a sua busca por um significado, fosse ele artístico ou existencial, e que permitiu comparações com James Joyce. Moser dispõe os fatos com rigor, mas ao mesmo tempo os ilumina por meio de uma ideia central e muitas opiniões, o que retira qualquer frieza factual das coisas relatadas. De origem judaica, como a escritora que escolheu biografar, o biógrafo ata os fios partidos da história com essa perspectiva.

A Clarice de Moser é movida pela orfandade (perdeu o pai e a mãe ainda menina) e se divide entre os deveres de dona de casa e a carreira de escritora.

Foi também uma mulher à frente do seu tempo, separada, com dois filhos, ganhando a vida como jornalista e escrevendo uma ficção tão avançada que não só deslumbrava, mas assustava os contemporâneos, muito mais chegados a uma prosa de alcance social, em duas dimensões. Além de tudo, alta, loira, de beleza exótica e sotaque entre o russo e o pernambucano, ela era fisicamente uma atração.

A escritora deixou uma aldeia da Ucrânia ainda bebê, fugindo com a família dos pogroms soviéticos. Passou a infância no bairro judeu do Recife. O que me mais me chamou a atenção no livro foi justamente a minúcia com que ele reconstrói esses inícios, tanto na Ucrânia como em Maceió e Recife. Também a reconstituição bem colorida e expressiva da comunidade judaica nesses lugares. E a intimidade que ele demonstra ter com o ambiente cultural brasileiro do século 20, diz o tradutor José Geraldo Couto, que fez, aliás, um ótimo trabalho de adaptação do inglês para o português, sem perder a elegância e a naturalidade jamais.

Esse efeito, de uma cultura vista de fora por um olhar inteligente e acurado, é outro dos grandes trunfos do livro. Por Clarice, desfilam alguns dos personagens mais emblemáticos da cultura brasileira do século passado. E não só da cultura. O ex-presidente Jânio Quadros faz uma patética aparição num quarto de hotel, onde tenta agarrar a escritora e termina por rasgar-lhe o vestido.

O bebê e a salvação

A principal novidade revelada pela biografia é a história terrível do estupro da mãe de Clarice por soldados russos. Contraindo sífilis, ela passaria o resto da vida presa a uma cadeira de rodas. De acordo com a crença judaica, a vinda de um bebê poderia curar a mãe: Clarice nasce algum tempo depois e não consegue salvá-la. Segundo Moser, esta culpa primordial acompanharia a escritora por toda a vida, impregnando sua literatura.

Outro ponto sensível do livro diz respeito ao romance entre Clarice e o talentoso e problemático cronista e poeta mineiro Paulo Mendes Campos. Eles se apaixonaram e viveram um caso incandescente e  rápido, que terminou mal para ela ¿ Campos  decidiu ficar com a mulher e os filhos, e os dois não se falaram mais. O jornalista Lucas Mendes divulgou involuntariamente a história de que teria havido censura na edição brasileira, atendendo a um pedido da família de Campos. Moser, de passagem pelo programa Manhattan Connection, apresentado por Mendes, teria comentado o romance dos dois escritores.

Na conversa, ele disse que não queria ofender a mulher do Paulo e que tinha omitido a história na versão brasileira. Eu publiquei isto na coluna, conta o apresentador. Foi um erro, baseado num mal-entendido durante a entrevista. Pedi uma correção e ele o fez, diz Moser. Não houve censura, pelo contrário: este é o primeiro livro que conta essa história com detalhamento, explica o editor Paulo Werneck, da Cosacnaify. Era um segredo de polichinelo, ou nem isso, já que livros como Ela é Carioca, de Rui Castro, já o haviam mencionado. Benjamin pela primeira vez contou essa história de amor quase não consumada. Nenhuma das famílias exerceu pressão quanto a isso. Elas foram sensíveis à seriedade do trabalho. Procurado pela reportagem do iG, Paulo Gurgel Valente, um dos filhos de Clarice, preferiu não comentar o assunto. O relato, discreto e curto, permaneceu na edição brasileira.

Outra das proezas de Moser é uma contradição. Se, por um lado, ele esclarece e ilumina passagens obscuras da vida de Clarice, por outro não consegue desmistificar a figura. É que a genialidade da escritora parece indomável. E sua vida se confunde com uma ficção estranhamente enraizada na vida real, sempre capaz de comover e subjugar a imaginação do leitor.

As críticas publicadas no exterior mostram um fenômeno em expansão. Clarice Lispector, espantosa nos mergulhos pessoais de uma literatura formidável e única, tende a assombrar cada vez mais os leitores de outros países. A partir de agora, não só pelas traduções que já foram feitas e tendem a se multiplicar. Clarice,, a biografia escrita com inteligência e sensibilidade por Benjamin Moser, é o livro perfeito para espalhar pelo mundo uma devoção que não para de crescer no Brasil.

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