Censurado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e advertido pelos próprios advogados de que seu gesto é inútil e pode ter efeito contrário, por passar a impressão de pressão indevida sobre o governo e o Poder Judiciário, o ex-ativista italiano Cesare Battisti decidiu hoje reconsiderar a greve de fome iniciada há uma semana. A expectativa da defesa é que a greve termine amanhã - a equipe médica da penitenciária da Papuda, onde Battisti aguarda preso o desfecho do seu processo de extradição, já está de sobreaviso para providenciar sua readaptação alimentar.

O advogado Luiz Roberto Barroso teve hoje uma longa conversa com Battisti e o convenceu de que continuar a greve de fome agora, quando a decisão do presidente ainda pode demorar alguns meses, seria "um tiro no pé ou coisa pior". A greve de fome foi considerada pela advogados uma "ação desesperada" para evitar a extradição.

Battisti ganhou refúgio político, concedido em 2008 pelo ministro da Justiça, Tarso Genro, mas o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou o decreto ilegal, por entender que os crimes de que ele é acusado são comuns, não políticos. Mas deu a última palavra sobre o pedido de extradição ao presidente da República, que aguarda a publicação do Acórdão para decidir, o que pode durar meses. A tendência é que a extradição seja negada, como quer o ministro da Justiça.

Hoje, Genro sugeriu que, diante das manifestações hostis de autoridades italianas, já haveria argumentos para Battisti entrar com novo pedido de refúgio baseado em perseguição política. Mas a defesa decidiu que até a publicação do Acórdão e a decisão do presidente, não vai se manifestar sobre o melhor instrumento para manter o ex-militante no País e nem ao menos pedir o relaxamento da sua prisão. "Estamos de mãos atadas e por enquanto só nos resta demonstrar tecnicamente que o caminho mais justo é a não extradição", disse a advogada Renata Saraiva.

O arrazoado técnico da defesa sustenta que Battisti não teve um julgamento justo e que o processo contra ele teria motivação exclusivamente política. Nega que ele tenha cometido qualquer dos quatro assassinatos dos quais é acusado e assegura que Battisti está desligado da militância desde 1978. Na ocasião, o PAC decidiu executar o agente penitenciário Antônio Santoro, acusado de maltratar presos políticos.

Contrário à execução, Battisti, conforme a defesa, discutiu asperamente com o também militante Pietro Mutti, o mais radical do grupo e que mais tarde veio a ser um "arrependido" (testemunha de acusação), mediante acordo de delação premiada. Ainda segundo a defesa, Battisti formou uma dissidência e estava fora do PAC quando foram cometidos os outros três assassinatos dos quais ele é acusado.

No Brasil, segundo a advogada, o único processo criminal contra Battisti é por uso de passaporte falso. Escritor e ligado a intelectuais de vários países, entre os quais a arqueóloga e historiadora francesa Fred Vargas, Battisti, segundo a defesa, vem se mantendo no Brasil com recursos próprios, oriundo da venda dos seus livros e com ajuda mandada por um comitê internacional de solidariedade em seu favor.

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