Bahia tem o maior número de pontos de exploração de crianças

Levantamento da Polícia Rodoviária Federal detecta 1.820 possíveis pontos de exploração sexual de crianças nas rodovias do País

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

A Bahia é o Estado brasileiro com o maior número de rodovias com pontos críticos de exploração sexual de crianças e adolescentes, totalizando 117 locais vulneráveis. Em seguida, está o Paraná, com 116 pontos. Juntos, os dois Estados detém 24,9% dos pontos mais críticos do País.

AE
Nordeste é a região que possui o maior número de rodovias suscestíveis à exploração sexual de crianças e adolescentes, aponta levantamento da PRF
Os dados fazem parte da quarta edição do Mapeamento de Pontos Vulneráveis à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nas Rodovias Federais 2009/2010, apresentado nesta quarta-feira pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) em parceria com a organização Childhood Brasil, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) da Presidência da República.

Ao todo, a pesquisa detectou 1.820 pontos de risco de exploração sexual de crianças e adolescentes espalhados por 66 mil quilômetros de estradas, sendo que 67,5% deles estão em áreas urbanas. O Nordeste é o que possui o maior número de pontos vulneráveis, com 545; seguido pelo Sul (399), Sudeste (371), Centro-Oeste (281) e Norte (224).

A PRF não divulgou exatamente quais são os pontos ou em quais quilômetros estão localizados a fim de preservar futuras ações repressivas e impedir que criminosos migrem de local de atuação. O levantamento mostra, porém, que as BRs 116 e 101, que ligam as regiões Nordeste, Sudeste e Sul são as mais perigosas para as crianças e somam 449 pontos possíveis de exploração.

De acordo com a PRF, entre 2005 e 2009,  2.036 crianças que se encontravam em situação de risco nas estradas brasileiras foram encaminhadas a conselhos tutelares. No mesmo período, 951 pessoas foram presas em flagrante por este tipo de crime.

Características dos locais

Conforme o chefe de Divisão de Combate ao Crime da Polícia Rodoviária Federal, inspetor Moisés Dionísio da Silva, foi observado pelos policiais algumas características comuns nos locais onde há abuso. Em 81,9% deles há o consumo de alcóol e, em 69,3%, há também exploração sexual de adultos.

Destacam-se também a presença de caminhoneiros em 76,1% dos pontos, ausência de vigilância privada (69,5%) e a escassa atuação do conselho tutelar (73,6%). Ao contrário do que normalmente se imagina, além de estarem predominantemente em áreas urbanas, 79,5% dos pontos de exploração são bem iluminados.

"É um equívoco pensar que a criança é explorada em um local escuro e distante, da zona rural. É um local bem iluminado, já que as crianças têm medo de escuro", ressalta ele. "O explorador também tem que ver o 'produto que está comprando' e ver se a criança está mesmo sozinha para ele não ser roubado", explica.

Os corredores de escoamento de riquezas em estradas que ligam regiões mais desenvolvidas a outras mais pobres também são pontos frequentes de exploração. O chefe de comunicação da PRF, inspetor Alexandre Castilho, enfatiza que as regiões com maior densidade populacional, na maioria das vezes, têm também um número maior de crianças exploradas. "Há um fluxo maior de veículos, maior número de 'clientes'. Quando a região é muito pobre não tem quem 'consuma esse serviço'", diz.

O levantamento aponta ainda que o exploração está, quase sempre, associada a outras práticas criminosas, como furto, exploração da prostituição, tráfico de seres humanos, venda e consumo de drogas.

Participação da sociedade

Quando questionado sobre qual a maior dificuldade que os policiais tem em combater este crime, o inspetor Silva não hesita: "a sociedade". "Não sabe quem tem o disque 100. Às vezes por questões culturais, não acha que é criança, vê como uma moça, uma mulher", critica ele. "Por despreparo ou desinteresse, a sociedade não protege suas crianças e aceita que sejam vendidas", completa Thais Faria, da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Ana Maria Dummmond, diretora da Childhood Brasil, opina que o grande desafio é integrar as esferas federal, estadual e municipal, e que é preciso uma rede de proteção ao menor em situação de risco. "O Brasil é um dos países que tem o Plano Nacional de Enfretamento da Violência Sexual. Já avançou, mas ainda precisa avançar mais. Ora a sociedade está indiferente, ora sem saber que existe o disque 100", afirma.

O disque 100 foi criado em 2003 - mas até 2006 funcionava em outro número - e recebe denuncias sobre violação dos direitos de crianças e adolescentes de todo o País. Funciona diariamente, incluindo finais de semana e feriados, das 8h às 22h, e a ligação é gratuita.

Metodologia

A edição 2009/2010 do estudo utiliza níveis de risco para classificar os pontos vulneráveis à exploração sexual. Os agentes da PRF que realizaram o trabalho de campo preencheram um questionário em cada local visitado. Como as respostas tinham valores distintos, foi possível atribuir diferentes graus de risco aos pontos identificados - baixo, médio, alto e crítico.

Os indicadores para definição do nível de risco foram a existência de prostituição de adultos, ocorrência de exploração sexual de crianças e adolescentes com base em relato policial nos últimos dois anos, registro de tráfico/consumo de drogas nos últimos 24 meses e presença constante de crianças e adolescentes no local visitado.

Além disso, 294 caminhoneiros receberam um questionário em que deveriam indicar dois pontos vulneráveis à exploração e apontar as principais características deles, tais como tipo de estabelecimento, próximidade com vilarejos e casas noturnas, condições de vigilância, estacionamento e iluminação, entre outros.

O inspetor Silva destaca que os caminhoneiros foram importantes para o levatamento por serem os "maiores conhecedores" das rodovias. "Ele não é o vilão da exploração. De fato, existem caminhoneiros que são exploradores, mas há também o profissional que condena a prática e quisemos mostrar isso", disse.

*Com informações da Agência Estado

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