Praias de Salvador sofrem com lixo, esgoto e "puxadinho"

Capital da Bahia, um dos principais destinos turísticos do País, está sem estrutura para receber visitantes

Thiago Guimarães, iG Bahia |

Sete meses após a demolição das barracas de praia de Salvador, a orla marítima de um dos principais destinos turísticos do País continua sem oferecer estrutura adequada aos visitantes.

O improviso prevalece nos 31 km de praias da cidade, com embalagens de isopor protegidas por guarda-sóis, acúmulo de lixo, caixas de cerveja empilhadas, “puxadinhos” de canos que viram chuveiros e paredes usadas como banheiros.

Enquanto o projeto de revitalização da orla não avança, em meio a um jogo de empurra entre Judiciário e Executivo, barraqueiros apontam a permanência de velhos problemas, como a degradação ambiental. Já moradores e turistas cobram soluções para o lazer nas praias.

“Falta estrutura. Não conseguimos ficar na areia e fomos para um restaurante”, diz a turista paulistana Fernanda Alves, 29 anos, sobre a experiência na praia de Itapuã, que teve 47 barracas demolidas.

A novela da demolição das 512 barracas da orla de Salvador começou em outubro de 2006, quando o Ministério Público Federal entrou com ação para suspender obras de reforma das barracas, intervenções patrocinadas por marcas de cerveja e apoiadas à época pela Prefeitura de Salvador. Alegava falta de licença ambiental e de autorização da União, dona da área.

Em abril de 2007, a Justiça Federal determinou a demolição das barracas. Sucessivos recursos apresentados pelos barraqueiros e também pela prefeitura adiaram a decisão até agosto de 2010, quando as barracas foram demolidas sob escolta policial e protestos dos comerciantes.

Barracas caem, mas problemas ficam

Se a preservação das praias foi uma das justificativas para a demolição das barracas, o cenário atual continua precário do ponto de vista ambiental. Na praia de Itapuã, imortalizada na música de Toquinho e Vinícius de Moraes, há esgoto, lixo e restos de concreto na areia.

E com as barracas se foram os banheiros. Em 1,2 km da orla de Itapuã, a reportagem viu apenas oito sanitários químicos. Resultado: em plena tarde de domingo, um homem urinava nos fundos de uma colônia de pescadores que sobreviveu à demolição.

“A demolição foi em decorrência da falta de higiene. Depois ficou isso aí, não melhorou nem piorou”, afirma Eulino Andrade, 69 anos, 12 deles como vendedor de óculos na praia.

A poucos metros dali, comerciantes anunciavam a chegada do “rapa”: fiscais da prefeitura que reprimiam a venda de churrascos e de bebidas em garrafas de vidro, proibidas desde a demolição. Mas lá estavam os churrasquinhos irregulares em Piatã, praia seguinte.

Hoje o acarajé das baianas é o único alimento que pode ser produzido e vendido nas areias de Salvador. Mas na praia do Porto da Barra, a mais badalada da cidade, a reportagem flagrou a preparação dos acarajés ao lado de montes de lixo.

“A limpeza é feita pela manhã e no final da tarde. Não dá, tem que ser o tempo todo, porque tem muito lixo aqui”, reclamava o comerciante Deni Santos, 25 anos, enquanto recolhia ele próprio a sujeira de sua venda de bebidas no calçadão.

Já ex-barraqueiros tentam sobreviver com a venda de bebidas, muitos deles instalados sob guarda-sóis nas áreas ocupadas anteriormente por suas antigas barracas.

“O cardápio das minhas barracas tinha 72 itens. Hoje só vendo água, cerveja e refrigerante. Minha renda caiu 90%, tinha dez garçons e hoje só um e meu filho”, conta José de Lima Praxedes, 57 anos, 26 deles como barraqueiro em Piatã.

Em visita a Salvador em agosto de 2010, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva prometeu buscar soluções, entre elas financiamento, para os barraqueiros. A ajuda não chegou e o aperto financeiro desses comerciantes acaba onerando os banhistas, que agora têm que pagar até R$ 15 pelo aluguel de cadeiras e guarda-sóis.

O impasse nas areias de Salvador também se tornou uma fonte adicional de desgaste para o prefeito João Henrique (sem partido), cuja gestão enfrenta uma crise política (deixou o PMDB neste mês) e financeira.

A duas semanas do Carnaval, época em que a cidade recebe até 500 mil turistas, o problema parece estar longe de uma solução: o advogado João Maia, que representa 350 barraqueiros, quer a anulação do processo, hoje com 37 volumes e mais de 8.000 páginas. Alega que os comerciantes não tiveram como se defender e quer reparação civil do Estado pelas estruturas demolidas.

E o capítulo mais recente da história ultrapassou os limites de Salvador. A Justiça Federal mandou demolir as 32 barracas da praia de Ipitanga, na divisa entre a capital baiana e Lauro de Freitas. A praia é um dos últimos refúgios de banhistas que buscam barracas na região. A Prefeitura de Lauro de Freitas, responsável pela praia, quer evitar a demolição.

Outro lado

A Prefeitura de Salvador informou que o projeto municipal de revitalização da orla da cidade está em análise na Justiça Federal, e sua execução depende de liberação judicial. O juiz responsável pelo caso não atendeu ao pedido de entrevista da reportagem.

A administração municipal diz que as praias da cidade contam com postos de salvamento com banheiros. Informa ainda que mantém quadras de esportes e investimentos em ciclovia e iluminação. Sobre o comércio irregular na orla, afirma que comerciantes não autorizados têm equipamentos e produtos retirados por equipes de fiscalização.

Em relação aos barraqueiros, a prefeitura informou que esses comerciantes vêm sendo priorizados nas autorizações para comércio nas praias enquanto o projeto de requalificação da orla não é aprovado pela Justiça.

Sobre a questão do acúmulo de lixo nas praias, a Limpurb (Empresa de Limpeza Urbana de Salvador) informou que a limpeza da faixa de areia é feita com tratores no início da manhã e ao final da tarde, tarefa que só é possível realizar com as praias vazias. Disse ainda que garis fazem o recolhimento de resíduos ao longo do dia.

    Leia tudo sobre: BahiaSalvadorPraias

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG