Por "tradição", Prefeitura de Salvador paga alimento para pombos

Capital da Bahia gasta quase 5 toneladas de milho por ano com aves que ameaçam saúde pública e destroem patrimônio histórico

Thiago Guimarães, iG Bahia |

Enquanto cidades como Goiânia (GO) e Londrina (PR) buscam soluções para a superpopulação de pombos, a Prefeitura de Salvador compra 400 kg de milho por mês para alimentar as aves que sobrevoam a sede do Executivo municipal.

Thiago Guimarães/iG
Pombos comem milho em frente à Prefeitura de Salvador
Diariamente, um funcionário terceirizado de limpeza da prefeitura distribui milho aos pombos na praça Thomé de Souza, localizada no centro da cidade e que abriga ainda pontos turísticos importantes, como o elevador Lacerda e o Palácio Rio Branco.

“A alimentação ocorre todo dia, exceto domingo. O funcionário roda a praça toda e junta mais pombos ainda”, disse o funcionário de uma lanchonete na praça, que não quis se identificar. Ao todo, a prefeitura gastou R$ 3.168 em 2010 na compra de 4.800 kg de milho para alimentar os pássaros.

A medida vai de encontro ao próprio Código de Saúde do município (lei 5.504, de 1999), que atribui à administração responsabilidade em “prevenir as infecções humanas transmitidas por animais, direta ou indiretamente, seja na condição de vetores ou como veículos”.

Pombos podem causar doenças como criptococose e histoplasmose, micoses causadas por fungos que se desenvolvem nas fezes das aves e que atacam pulmões, sistema nervoso central e outros órgãos internos. Estão associados também a dermatites e alergias.

Segundo o Manual sobre Pombos Urbanos da Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, as fezes dos pombos também podem provocar danos materiais. Ácidas, danificam pinturas, superfícies metálicas, fachadas e monumentos. Um pombo produz, em média, 2,5 kg de fezes por ano.

No caso de Salvador, os pombos são alimentados ao lado do Palácio Rio Branco, antiga sede do governo da Bahia. A construção começou a ser erguida no século 16 e foi reaberta em 2010, após restauração.

A proliferação de “pombos de rua” em ambientes urbanos é associada a três fatores: oferta de abrigo, ausência de predadores naturais, como gaviões, e grande quantidade de alimentos disponíveis.

Recebendo comida do homem, essas aves deixam de buscar na natureza alimentos adequados à sua dieta, como frutas e insetos, aponta o manual sobre pombos da Saúde de São Paulo.

A superpopulação dessas aves motivou medidas extremas em algumas cidades.

Em Goiânia, por exemplo, a Câmara aprovou em 2009 a esterilização de pombos. O prefeito vetou a medida, alegando eficácia reduzida e falta de autorização para uso no Brasil do produto indicado para a prática. Já um decreto de 2009 da Prefeitura de Londrina proibiu a população de alimentar pombos.

Outro lado

Thiago Guimarães/iG
O símbolo da Prefeitura de Salvador é uma pomba
Em nota, a Prefeitura de Salvador afirmou, citando a Vigilância Sanitária do município, que a alimentação dos pombos “não promove nenhum dano à saúde pública, uma vez que o milho é dispensado em ambiente aberto”.

“A Vigilância [Sanitária] explica que somente não é viável manter esses animais próximos a hospitais e a clínicas médicas”, diz a nota da administração.

A prefeitura informou ainda que a “tradição em alimentar pombos que sobrevoam a prefeitura é bastante antiga e passa de gestão a gestão”. Disse que a “preocupação” com o pássaro, que é símbolo da prefeitura, é lembrada por antigos funcionários da Casa como prática iniciada na segunda gestão do prefeito Mário Kértesz (1986-1989).

    Leia tudo sobre: BahiaSalvadoradministração pública

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG